Câmara de Mortágua rejeita proposta do Programa Setorial das Zonas de Aceleração de Energias Renováveis
O executivo deliberou e considera que “o modelo apresentado concentra de forma excessiva novas áreas destinadas à instalação destas infraestruturas”
No âmbito da proposta do Programa Setorial das Zonas de Aceleração de Energias Renováveis (PSZAER), que “identifica áreas particularmente adequadas para a implantação de projetos de energias renováveis”, na reunião ordinária da Câmara Municipal de Mortágua, que se realizou no dia 1 de julho, o executivo deliberou e considera que “o modelo apresentado concentra de forma excessiva novas áreas destinadas à instalação destas infraestruturas, sem atender e salvaguardar, devidamente, as questões ambientais, paisagísticas e socioeconómicas do concelho.”
A Autarquia de Mortágua afirma que a proposta da PSZAER levanta “sérias preocupações” quanto à sua amplitude e incidência territorial, quanto à sua fundamentação técnica e à sua compatibilidade com os instrumentos municipais e regionais de planeamento territorial em vigor.
A Câmara Municipal de Mortágua, refere reconhecer a importância estratégica da transição energética e dos objetivos nacionais e europeus de descarbonização. No entanto, “considera que a aceleração da produção de energia renovável não pode ser feita à custa da desorganização territorial e de uma ocupação extensiva e quanto nós abusiva, do solo rústico, sem avaliação rigorosa dos impactos locais”.
A mesma fonte realça que Mortágua “sempre contribuiu para os objetivos nacionais de descarbonização e de produção de energia renovável”. Exemplificando apresentando o caso da Barragem da Aguieira, o Parque Fotovoltaico do Cabeço Santo, o Parque Eólico do Alto do Monção, e Central Termoelétrica de Mortágua. Desta forma, a autarquia aponta que “essa contribuição não pode traduzir-se numa concentração excessiva de infraestruturas energéticas num único concelho, sobretudo quando este assenta grande parte da sua identidade, da sua economia e do seu potencial de desenvolvimento na floresta e nos recursos naturais”.
O Município aponta que a floresta constitui um dos principais ativos de Mortágua, desempenhando um papel determinante na economia local, na criação de emprego, na proteção da biodiversidade, na conservação dos solos e da água e na mitigação das alterações climáticas. A autarquia acrescenta que Mortágua e a sua população “desempenham um papel fundamental” na proteção da floresta, sendo exemplo nacional na vigilância e prevenção florestal.
A mesma fonte, sublinha ser “inegável que as energias renováveis são essenciais para combater as alterações climáticas”, mas refere que esse objetivo não deve ser prosseguido à custa “de uma excessiva pressão” sobre determinados concelhos, quando existem outros territórios com condições, igualmente, favoráveis para acolher estes investimentos.
Neste âmbito, a autarquia destaca que a distribuição das ZAER deve obedecer “a critérios de maior equilíbrio territorial”, assegurando que o esforço nacional de produção de energia renovável é partilhado de forma justa entre os diferentes municípios. A incidência territorial no Município de Mortágua das ZAER aponta para a possibilidade “de afetação de uma área correspondente a cerca de 50% do concelho”, o que o Município de Mortágua considera ser “manifestamente excessiva e desproporcionada face à escala territorial”.
“Defender Mortágua não significa impedir a produção de energia renovável, mas sim exigir que esta seja planeada com justiça, proporcionalidade e respeito pelo património natural que constitui um dos maiores valores do nosso concelho”, afirma o município.
O Município de Mortágua ainda afirmou que a sua posição pretende a salvaguarda da qualidade de vida da população, da paisagem, da floresta, da biodiversidade, da economia e do turismo. “Ademais, a proposta colide com os instrumentos de gestão territorial em vigor neste concelho, nomeadamente, com áreas de expansão empresarial e logística, corredores de infraestruturas, reservas para equipamentos coletivos e zonas de expansão urbana programada, criando um risco real de conflito na afetação do solo”, reforça a autarquia.
A mesma fonte considera “inaceitável” que a intervenção dos municípios possa ficar limitada a uma verificação posterior de compatibilidade, já em fase de licenciamento, quando a definição das zonas é feita a montante, sem articulação prévia e substantiva com as autarquias e com as comunidades intermunicipais, nos termos das competências municipais e intermunicipais. Referindo que os Planos Diretores Municipais não podem ser tratados como bloqueios administrativos, uma vez que são instrumentos de gestão territorial aprovados pelos órgãos autárquicos competentes, sujeitos a avaliação ambiental, discussão pública e ponderação de interesses locais legalmente protegidos.
A autarquia reforça que “qualquer simplificação dos procedimentos de licenciamento de projetos de energias renováveis deve ser construída em cooperação com os municípios e as comunidades intermunicipais”, através da adaptação acompanhada dos PDM, do reforço da capacitação técnica local e da participação antecipada das autarquias na territorialização das ZAER.
Desta forma, a Câmara Municipal de Mortágua divulgou que “aprovou emitir Parecer Desfavorável” à Proposta de Programa Setorial das Zonas de Aceleração de Energias Renováveis, bem como subscrever na íntegra a emissão do Parecer Desfavorável emitido pela Associação Nacional de Municípios Portugueses, considerando que a mesma, nos termos em que se encontra formulada, “pode ter consequências graves” para o concelho de Mortágua, nomeadamente ao nível da qualidade de vida da população, da paisagem, da floresta, da biodiversidade, da economia e do turismo.
A proposta de PSZAER foi publicada no passado dia 8 de junho, em Suplemento da II Série do Diário da República, do Aviso n.º 14136-B/2026/2, que torna pública a abertura do período de discussão pública da proposta de PSZAER – Programa Setorial das Zonas de Aceleração de Energias Renováveis, com início a 17 de junho e términus a 15 de julho corrente.
Autor: Jornal da Mealhada
