Cansaço de Campeão
Meus amigos, confesso-vos que escrevo estas palavras com um grande cansaço emocional e físico, até. Um cansaço dos bons, que […]
Meus amigos, confesso-vos que escrevo estas palavras com um grande cansaço emocional e físico, até. Um cansaço dos bons, que é o das celebrações de momentos de alegria, dos que ficam registados para sempre. Um cansaço de campeão. Este ano o Benfica resolveu parabenizar-me no meu dia de aniversário com o mais saboroso de todos os campeonatos que me lembro conquistar desde que sou gente, e benfiquista também, naturalmente. Sim, conjuguei o verbo na primeira pessoa porque também eu joguei no campo durante toda a época com o número 12 estampado nas costas. Se dúvidas houvessem de que temos a maior e melhor falange de adeptos do país, e uma das maiores e melhores do mundo inteiro, essas ficaram claramente dissipadas ao minuto 70 do derby lisboeta que perdemos dolorosamente por três bolas contra os verdes. Foi porventura uma das mais marcantes demonstrações de benfiquismo de que tenho memória, com 65 mil almas de lágrimas nos olhos e o coração ferido a gritar fervorosamente o nome do seu clube, clamando o seu amor eterno apesar do desafio já perdido. Essa reacção à derrota e à adversidade provou claramente que era com aquele espírito colectivo que chegaríamos à mais gloriosa de todas as vitórias, que foi a final. Soubemos perder para no fim conseguir ganhar, e essa foi uma das mais valiosas lições que o nosso Mister nos ensinou a todos, já que a isso não estávamos em nada habituados: a lição da humildade.
Houve vários momentos e intervenientes decisivos, mas vou aqui apenas recordar meia dúzia deles, para não ser demasiado exaustivo. Rui Vitória. Começou ao pé-coxinho mas acaba a época em grande, com dois títulos na algibeira e o respeito e a admiração de todos os sócios e adeptos, que é talvez a sua conquista maior. É um Homem deste tamanhão, assim, com um H bem grande! Luís Filipe Vieira e Rui Costa. A actual hegemonia futebolística do Benfica nas competições nacionais e a excelente constância de bons resultados nas provas europeias atestam o sucesso inequívoco do projecto desportivo desta dupla. Uma gestão de rigor e seriedade pautada pelos bons valores e pelo exemplo de elevação que é transmitido. O clube está muito bem entregue! Renato Sanches. Os números falam por si. Foi desde que pegou na equipa que o Benfica ganhou claramente uma outra dimensão. É incrível a forma como enche o campo todo com apenas 18 anos. O espanto generalizado pela autêntica bomba que foi a sua afirmação não o deixaria ficar muito tempo no clube. Que tenha toda a sorte no poderosíssimo Bayern, um clube que passará certamente a contar com as simpatias de mais uns quantos milhões de adeptos de futebol do mundo. Jonas. O pistoleiro fez mais uma vez a diferença e mostrou com muitos golos e acima de tudo muita classe como é que se joga à bola como deve ser. É um privilégio autêntico ver um artista destes com o manto sagrado vestido. De seguida, Ederson, Lindelof, Jardel e Fejsa. Um dos maiores contributos para o sucesso desportivo desta época foi sem dúvida alguma o eixo defensivo da equipa, um miolo praticamente intransponível tanto com a bola a rolar no relvado como nas alturas. Para acabar os destaques, Gaitán. Nico para os amigos, como é o meu caso. Que jogador. Que qualidade. Que carácter. Que humildade. Que pés! A sua saída de campo em lágrimas na final de Coimbra é uma prova de todo o seu benfiquismo, uma emoção partilhada com todos os adeptos que também choram a iminente saída de um dos seus mais valiosos e marcantes jogadores das últimas épocas. O Nico é um senhor do futebol mundial, e vai claramente directo para a galeria dos Imortais do clube. Uma vénia!
E pronto, amigos. A verdade é que estou a precisar de umas merecidas férias desportivas, para acalmar um pouco as emoções todas de um campeonato disputadíssimo até ao fim e animado como há muito não se via. Muitos parabéns ao rival Sporting que, apesar de jogar como nunca, acabou por perder como sempre. A vitória do Benfica é justa e inequívoca, até porque aliámos o bom carácter à qualidade de futebol praticado. Em Agosto começa tudo outra vez, e se em abono da verdade daqui duas ou três semanitas já estou cheiínho de saudades do meu Benfica, agora o tempo é de descansar um pouco o cansaço de campeão de que padecem todos os benfiquistas espalhados pelo país e por esse mundo fora. Não é fácil celebrar tanto assim, mas para o ano há mais, espero. O futebol é muito mais importante para a vida das pessoas do que parece, e ainda bem que assim é.
Que grande alegria! Viva o Benfica!
xa0
Opinião de Mauro José Tomaz
Autor: Jornal da Mealhada
