CGTP a manifestar-se desde 1970
Na passada semana pudemos assistir, na Covilhã, a um episódio que raiou a violência física contra o Ministro da Economia […]
Na passada semana pudemos assistir, na Covilhã, a um episódio que raiou a violência física contra o Ministro da Economia Álvaro Santos Pereira.
Diriam os distraídos, e também o Ministro, que a manifestação de desagrado havia sido algo espontâneo, fruto destes tempos difíceis de austeridade, desemprego, aumento da precaridade e da carência social. Alías, o próprio Ministro da Economia, na sua boa fé, até foi mais longe, através da manifestação, duma caridade quase cristã, de compreensão das manifestações e até dos insultos, afirmação na qual não me revejo.
Mas, a frio, constatámos que a liderança da manifestação violenta não partiu dos injustiçados desempregados ou trabalhadores precários. A esses atribuo, pelas dificuldades sentidas, toda a legitimidade para a indignação e manifestação contra a austeridade que nos toca a todos, que não desejámos, que não apoiamos, mas para a qual não temos alternativas. A violência contra o Ministro teve origem, sim, nos profissionais da greve, nos especialistas da luta contra o capitalismo, nos paladinos dos direitos dos trabalhadores. Ou seja, nos assalariados da CGTP que há muitos, muitos anos desconhecem o valor do trabalho e das reais dificuldades de quem, na verdade, produz. Já sei que estas palavras irão criar ira nalguns camaradas, mas o choque que tive ao ver um dirigente sindical que desde 1979 nada mais faz do que manifestar-se e exigir a lua dos Governos, do patronato e do diabo a sete, não pode colher o meu apoio. Lamento, mas não tem a minha solidariedade na indignação daqueles que muito justamente lutam pelo seu posto de trabalho e pelo seu salário, o que não foi o caso daquele dirigente sindical.
Mas vou ainda um pouco mais longe. Olhemos para o que nos diz a História do pós-25 de Abril e coloquemos na balança os contributos de vária ordem que a CGTP deu aos trabalhadores e ao tecido produtivo português.
1 A CGTP contribuiu, e muito bem, para a criação do salário mínimo nacional.
2 A CGTP, em conluio com o Conselho da Revolução, contribuiu e instigou a nacionalização da banca, dos seguros e a dita Reforma Agrária que, poucos anos depois, levou à ruína da agricultura portuguesa.
3 Por último, que eu saiba, a CGTP não ajudou a criar um posto de trabalho desde a sua fundação.
Sendo assim, com que legitimidade é que a CGTP instiga greves na CP e na TAP sabendo que estão a depauperar ainda mais empresas com dificuldades? Porque razão não mostram mais razoabilidade nas suas exigências ao Governo e à entidades patronais?
Por uma razão simples mas atroz. A Intersindical aumenta a sua força na fraqueza, tem mais influência na queda das empresas do que na sua solidez. E hoje temos a constatação quase científica desta afirmação. É nestes momentos de crise, de austeridade e dificuldade que a CGTP mostra a sua força, não pretendendo contribuir de forma racional, preferindo ser um factor que leva à destruição total. Lamentável.
NOTA FINAL: O Jornal da Mealhada regressa, após uns meses de ausência, ao formato de papel, cumprindo assim uma promessa que havia deixado aos leitores. O concelho da Mealhada agradece, pois, um jornal tão eclético e que chega a públicos tão distintos, merecia este renascer das cinzas.
O meu desejo pessoal é que regresse mais forte, mais pujante, em nome duma pluralidade informativa que todos desejávamos que regressasse.
Não posso deixar de dar aqui os meus parabéns duma forma singular ao seu director, Nuno Canilho, que foi o obreiro principal desta boa nova. E congratulo-o também por todo o arrojo que colocou na edição online do Jornal da Mealhada com visíveis e brilhantes resultados.
MIGUEL FERREIRA
COLUNA VERTICAL
Autor: Jornal da Mealhada
