Coluna vertical?! (A propósito do acordo da concertação social)
Chamaram-me a atenção para um aparatoso chorrilho de disparates publicado na versão electrónica do JM. O título da mistela, combinando […]
Chamaram-me a atenção para um aparatoso chorrilho de disparates publicado na versão electrónica do JM. O título da mistela, combinando de forma vulgar condimentos como CGTP, PCP e Coreia do Norte era já um aviso para o pot-pourri com que o autor confesso do dislate preencheu uma rubrica que intitula coluna vertical. Com aquele arranque, a coisa, claro, não prometia nada de vertical, pelo menos em termos de honestidade intelectual, mas lá me fui por ela adentro com esta mania de ler o que escrevem e ouvir o que dizem outros/as que não pensam como eu.
Confesso que não fiquei convencido de que houvesse pensamento subjacente ao texto em causa. Apenas a estafada mistura de ingredientes que surge, amiúde, cassete na era do digital, quando se trata de atacar ou tentar menorizar os trabalhadores e as suas organizações. Encontrei por ali apenas a simplória ocultação da real natureza das políticas de escandalosa regressão que nos estão a levar, em passo cada vez mais acelerado para um abismo sem retorno, políticas com que o autor do pot-pourri está partidariamente comprometido e com as quais é, como demonstra, pessoalmente conivente: empobrecimento, exploração, perda de soberania, destruição de direitos e condições de vida
CGTP, PCP e a Coreia do Norte (!), na cabeça do político local do PSD, são os tópicos adequados, obtidos no gasto cardápio das reaccionarices primárias, para disfarçar a colossal regressão, o devastador atentado, o desavergonhado contributo que o seu partido, agora no Governo, parindo desgraças sem freio, fomentou sob o interesse das organizações dos grandes patrões e com a colaboração da UGT, a central sindical que nasceu artificialmente para fazer coisas como esta.
Recorro à edição do Público (!) de quarta-feira, dia 18, dia da assinatura do acordo que a CGTP-IN rejeitou porque representa e defende os trabalhadores e não outra coisa qualquer (os sublinhados são meus):
Os trabalhadores terão de trabalhar mais horas por menos dinheiro, podem ser despedidos mais facilmente, verão as indemnizações por despedimento reduzidas assim como os limites máximos do subsídio de desemprego. As férias passam para 22 dias, haverá menos três a quatro feriados, e as faltas serão penalizadas.
Já as empresas poderão beneficiar de maior flexibilidade do tempo de trabalho e verão os custos com o trabalho reduzir-se, além de poderem beneficiar de apoios à contratação.
Mais à frente: Ouvindo os dirigentes das confederações patronais e da UGT, parece que os ganhos com o Acordo Tripartido [] ficaram todos do lado das empresas [].
E ainda, os pontos-chave do acordo com que o Público, na sua versão portuguesa e não coreana que julgo que a não tem prosseguia o destaque da edição: Mais fácil despedir. Mais barato despedir. Menores subsídios. Horas valem menos. Menos férias e feriados. Empresas apoiadas Menos sindicatos.
Que grande acordo tripartido, não foi?!… Que equilíbrio, que futuro radioso Que esperança luminosa para o país Que recuperação económica, que melhor viver, que amanhãs que cantam se anunciam com este acordo que a CGTP-IN não quis vejam só, os malandros! – e que o PCP, publicamente, tão bem condenou!
Para que conste das actas, e se algum leitor o não souber, sou sindicalizado e dirigente de um sindicato que integra a CGTP-IN; sou também militante do PCP. E pelos mesmos motivos que digo que seria uma inqualificável traição aos trabalhadores se a central sindical a que pertenço subscrevesse aquele vergonhoso acordo, digo que concordo inteiramente com a justa apreciação negativa que o meu partido faz desse cozinhado, o cozinhado que o autor do texto a que reajo pretendeu defender, atirando areia para os olhos de quem o lê.
Se for concretizado, as consequências serão tremendas para todos os trabalhadores e, portanto, para o país. Como se compreende, mesmo aqueles que votaram ou pertencem ao partido do sr. Miguel Ferreira, sofrerão pesadamente, razão pela qual, pelo menos, se impunha alguma verticalidade na defesa e explicação das virtudes do consenso contra os trabalhadores. Mais, lembro que a CGTP-IN representa trabalhadores com diferentes opções de voto e até militâncias partidárias, incluindo do partido do sr. Miguel Ferreira, e que os representa bem quando não colabora com o que os agride e lhes rouba o presente e o futuro a que eles e as suas famílias têm pleno direito!
Por tudo isso, por favor: respeite a inteligência das pessoas ou, se isto não se coadunar com a sua ideia de verticalidade, pelo menos respeite os trabalhadores que confiaram no seu partido e que, afinal, estão a ser violentamente lixados por ele.
João Louceiro
Pampilhosa
Autor: Jornal da Mealhada
