CRÓNICAS LOCAIS 193
MÁ EUROPA MEDITERRÂNICA O rapaz está encostado à ombreira da porta do supermercado. Chamo-lhe rapaz, mas é um homem. Negro. […]
MÁ EUROPA MEDITERRÂNICA
O rapaz está encostado à ombreira da porta do supermercado. Chamo-lhe rapaz, mas é um homem. Negro. Tem um bigode a despontar debaixo do nariz que pouco se distingue da cor da pele. Ás vezes é substituído por raparigas ou por mães com o filho encostado ao peito sentadas no patamar. Raramente são brancos estes pedintes dos shopes. Não é só neste de Quinto, há-os por todos os cantos da cidade onde quer que se venda alguma coisa. Dizem que é uma rede que espalha os seus tentáculos pela Europa. Uma ou mais redes, presume-se. Desta vez o rapaz estende-me o copo do óbulo com a mão direita e enquanto o agita para tilintar as moedas fala ao telemóvel segurando o aparelho na mão esquerda. Hesito. Este wireless moderno faz-se hesitar. Talvez sem razão. Tinha dez cêntimos na mão para lhe dar, tanto quanto me custa o saco de plástico que vou comprar para trazer as compras, um litro de leite, uma embalagem de pesto (massa de basílico) e um pedaço de queijo parmesão para o almoço. Volto com o gesto atrás, meto a moeda no bolso das calças e sigo. A rede talvez vá ficar sem um contribuinte, penso. Conforme ouço dizer, são uma espécie de empregados estes que dão a cara, ou por outras palavras, mendigam.
Á terça-feira, dia de mercado semanal nas ruas do bairro, estendem-se por todo o lado armados de copo de plástico. É ferramenta que basta para chocalhar moedas e pedir. Não são sempre os mesmos, revessam-se, trabalham por turnos, estão organizados e controlados e ao fim de cada turno supõe-se, farão as contas perante o patrão ou usurário. Acho que vistas as coisas desta maneira, poderemos chamar-lhes patronato. De vez em quando falo com eles. São quase todos do Senegal, senegalezes. Falam francês melhor que eu. Também o patrão é de Saint-Louis, na foz do rio que dá o nome ao país. Alguns são da região de Casamansa, onde fazíamos algumas incursões além fronteira atrás dos terroristas nos tempos da guerra na Guiné Portuguesa. Por isso, eles são hoje heróis e nós vilões. Vilões pela vergonha de defender a pátria? Uma metáfora trazida por fugitivos medrosos que voltaram para casa para fazer política e o Portugal corrupto que hoje temos. Esta pátria sempre agradeceu bem aos seus soldados e sempre medalhou os seus algozes!
Aos raides de metralha juntávamos os raides pelas bajudas, dum lado e doutro da fronteira as gentes são iguais, os credos são os mesmos, a miséria é idêntica, o vestuário adaptado ao sol e a cor da pele nunca nos inibiu. Nunca tivemos preconceitos como os ingleses nas nossas relações, por isso se nos atribui a criação do mestiço enquanto o pirata inglês Francisco Drake, já mestre de apartheid, pirateava os mares em nome da Rainha Vitória que lhe colou o Sir antes do nome. Muitos fizeram santos de pau carunchoso, os verdadeiros não vieram a lume por isso nunca me fiei nas pantominas das igrejas que justificam crimes pela remissão dos pecados ou nas madres Teresas que, vai-se a ver, tem tanto de santas como do demo! Esse não é o meu mundo. Prefiro um santo António pardaleiro com beijos e recados abaixo dos altares e despregado a rir entre calores de Pádua e saias de Lisboa.
É domingo, um domingo de Maio, rosas e buganvilias desprendem-se dos muros que se avistam do mar no ferry de Palermo. Um barco que se afasta em direção ao sul olhando para a Ligúria um cais de despedidas que foi centro dum mundo depois da Roma dos Cesares ter feito uma Europa una com a força das legiões. Do Egito á Ibéria, á Gália, a Albion, à Germania, à Persia. Foi imenso este império da primeira união dos povos da bacia do grande lago romano. Com a força do braço e a lâmina das armas Roma uniu a anarquia dos povos anteriores, juntou sabedoria com os gregos, grandeza com o Egipto, fez estradas e fez leis e fabricou Europa, a mãe das uniões. Com a democracia que hoje existe, parece um impossível sonho aspirar a algo mais. Como dizia Charles DeGaule, se é tão difícil governar a França, como se podem governar vinte e oito países numa Europa democrática? Um sonho utópico?
Esta semana, dos doze mil refugiados que atravessaram o mar mediterrânico frente á Líbia para fugir das guerras, da miséria e da morte, cerca de novecentos afogaram-se em três naufrágios no canal da Sicília. Os outros foram salvos pela marinha italiana, como é costume. Bruxelas fica longe, numa Europa sem história, esquecida que na última guerra o movimento foi ao contrário, de milhares de europeus a refugiar-se em África.
Assim como nós perdemos a sã gestão das finanças, esta União sem rumo perdeu o decoro, o sentido da solidariedade, o humanismo secular da sua civilização, a iniciativa no seu próprio território!
As legiões do novo milénio, poderão ser dramáticas para a Europa e para o mundo, onde os deuses com pés de barro tomaram o lugar de antigos Césares!
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Génova, Nervi, Maio 29, 2016
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Artigo de Ferraz da Silva
Autor: Jornal da Mealhada
