Domingo, 17 de Julho de 2016

CRÓNICAS LOCAIS 195

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Região

CRÓNICAS LOCAIS 195

JO COX E MARGARET TATCHER xa0 É longo o caminho da civilização e muitos são os seus heróis, os seus […]

JO COX E MARGARET TATCHER

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É longo o caminho da civilização e muitos são os seus heróis, os seus mártires, os seus génios ou aqueles que, na sua maioria historicamente anónimos, impulsionam as mudanças e o progresso. O progresso é andar, experimentar, mudar e nem sempre as vias são fáceis de percorrer, nem sempre os primeiros passos são cómodos e serenos, regra geral o futuro faz-se perante resistências contra o novo e os interesses, fruto da nossa condição genética de seres baptizados de humanos, mas de matéria muito mais comum. Estagnar, pelo contrário, é morrer.

A Europa, cujo percurso democrático se enrolou na burocracia cómoda dos défices orçamentais, na busca duma homogeneidade de culturas e processos que não existe, parou na caducidade dos seus líderes. Sem objecto e sem democracia, largou o cidadão á sua sorte, como na sorte funcionam os seus órgãos sem eleitos reais, um parlamento sem mandatos, um complot de gente inútil que se instalou em Bruxelas da mesma forma que se instala nas estruturas políticas europeias para proveito próprio, em jogos de influências escuras, uma espécie de polvo legitimado pelas comodidades do estatuto.

Quem manda no mundo da economia globalizada são os mercados sob a batuta dos Usa e da China, onde o financeiro e o da guerra, para mal do cidadão, são extremamente protegidos e apoiados. Esta Europa que deixou de contar nas decisões por não ter líderes capazes de manter a sua independência politica no novo milénio e hoje é um protectorado ocidental encalhado nos corredores vazios de Bruxelas e nos temores de cada membro a defender de per si os interesses imediatos. Não há um presidente comum, não uma experiência de governo supranacional, a democracia são votos vagos e sem programas, fruto da retórica política dum dia a dia rotineiro á margem da Europa das pessoas.

É por aqui que surge a contestação que se traduz nos votos, grandes abstenções e pela fuga aos partidos tradicionais instalados que, não cumprindo minimamente a sua missão vêem surgir movimentos capazes de vencer eleições, como o Podemos em Espanha, o 5 Stelle da Itália, a direita Le Pen em França ou a saída da Comunidade no Reino Unido.

Foi aqui no outro lado do canal que a violência se despoletou antes da decisão.

Jo Cox foi assassinada em razão da sua fé, da sua visão europeísta, da sua crença num mundo melhor, mais justo e mais igualitário e pelo seu forte empenho nessa luta. Um louco com uma arma carregada, quer o fosse por si ou dada por outro louco mais lúcido do que ele ou por uma qualquer seita vencedora, ceifou-lhe implacavelmente a vida e Jo Cox deixou de existir. Estes são os processos radicais do mundo do crime e da intolerância.

Militante progressista do Labour, acreditava, como os antigos crentes, nos homens e nos deuses, deu-se de corpo e alma á ideologia que lhe propôs a sua própria génese, da mesma forma que se deu á religião ou ao amor. Dois filhos de menor idade, um marido e uma longa travessia por fazer, cortada subitamente pela violência das armas. Ficamos sem saber se individual, se colectivamente preparada.

De qualquer modo, Jo Cox é a primeira mártir inocente desta nova Europa derrotada, que vai ajustar o fato ao encolher das suas novas medidas. Vítima dum continente também sem fé e sem democracia, réu do primado do individuo sobre a sociedade ao gosto duma Margaret Thatcher quando na sua filosofia politica afirmava a sociedade não existe, existem apenas indivíduos, o egoísmo a impor-se sobe a solidariedade, as bolsas e mercados novos templos da desumanização. Estas, algumas raízes que estão nas bases da sociedade globalizada, especulativa, esclavagista, onde o colapso humano dá lugar ao vedetismo anacrónico forjado em heróis de olaria, cujos limites finais são a riqueza. Talvez para os outros se reserve a distinção que se dá hoje ao animal doméstico, se o homem se deixar embrulhar neste pacote feito de falsidades e destruição de valores milenares.

Paradoxalmente, o Reino Unido votou a favor do que critica num referêndum dos tempos mediáticos. Nós portugueses, eternos colonizados por um velho tratado casamenteiro, temos obrigação de conhecer o comportamento inglês. Se por uma ou duas vezes nos auxiliaram durante a história pátria, muitas mais nos encostaram á parede usando e abusando do seu poderio para nos impor as suas decisões, enquanto nos piratearam pelas rotas das especiarias e das conquistas do novo mundo. A face oculta da sua insularidade.

Não admira o descontentamento. Todo o europeu comunga e crítica esta Europa centralizada e burocrática que deixou de funcionar e que nunca serviu os interesses programáticos fixados ao cidadão. Mas não parece que seja fora dela que se melhoram as coisas, não parece que cortando pilares fundamentais dum continente se resolva a questão da sua grandeza e da sua influência na economia do globo. Afinal o Reino Unido escolheu por outros métodos o caminho da Rússia, uma independência altiva, isolada, imperialista e interesseira e xenófoba, prejudicial para a marcha dos povos da região. Erro de cálculo político do ministro Cameron em primeiro lugar!

Quanto ás consequências, urge que a Europa acorde e reaja com rapidez. É provável que surjam referendos na Holanda, na Áustria, na Hungria, na Dinamarca, na Republica Checa, na Escócia, na Irlanda, um pré-anúncio da desagregação europeia que, levianamente mantém, após dezenas de anos de experiência, a figura do simples referêndum para qualquer um saltar do barco o que na prática quer dizer, excluindo a abstenção, que cerca de trinta e cinco por cento dos ingleses desvincularam o país. Quanto ao imediato temos que aguardar a vontade especulativa dos mercados e das bolsas, quer sejam do petróleo, das batatas ou das cebolas, segundo as regras acordadas sem Europa, entre a China e os Estados Unidos da América. Os homens, as famílias, as sociedades, as nações, até os continentes e os mares, já fazem parte do museu fantoche do neo-liberalismo. Podemos ir sem dúvida a caminho do ditador global seguindo o mito tão do agrado da senhora Tacther ou da Dama de Ferro, para sermos mais precisos, quando a Europa tinha e defendia a sua humanística tradição. Algo tem de mudar, para retomar o caminho.

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Luso,25, Junho,2016

Ferraz da Silva

Autor: Jornal da Mealhada

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