CRÓNICAS LOCAIS – 252 – A PONTE
Desta vez quando cheguei a Génova a ponte Morandi estava no chão. Foi há um mês, em Setembro, também um […]
Desta vez quando cheguei a Génova a ponte Morandi estava no chão. Foi há um mês, em Setembro, também um mês depois da queda que levou consigo quarenta e três vítimas mortais, alguns feridos e muitos prejuízos para uma cidade que vive por si própria, criando riqueza e originando empregos. Comecei a ver os restos quando o comboio procedente de Milão entrou no estreito vale do Polcevera, que depois se vai alargando até desaguar no mar mediterrânico. O Polcevera não é bem um rio mas uma torrente entre outras que, vindas dos Apeninos lígures que se encostam à cidade, entra pelo mar adentro quase em cima do aeroporto Cristóvão Colombo, uma comprida pista de cimento construída sobre as águas, misturada com o porto de mar. O rio é uma torrente tumultuosa quando chuvas diluvianas desabam sobre a montanha ou um fio de água de charco em charco no pico dum Verão seco como tem sido o atual. Sem excluir a possibilidade duma tempestade súbita inundar a região, baixios, ruas e praça, fruto do fluxo da corrente e da pequenez dos cursos e do clima, que não raro faz desabar tempestades nos limites do mar.
O comboio desceu a encosta, atravessou o leito seco do rio ou da torrente sobre uma velha ponte de ferro de estrutura enferrujada e entrou no complexo citadino do parque ferroviário, que passa sob os restos do viaduto ainda de pé. Da ponte caiu um vão e os suportes, mas todos os restos dos mil e duzentos metros do seu comprimento se encontram criticamente em pé, sem garantias de segurança, continuando a aguardar que a burocracia identifique os responsáveis e dê ordem para iniciar o abate total. Mas a identificação de responsáveis, como da segurança, são problemas de difícil solução que podem arrastar atrás de si pleitos na justiça. A Itália é um país onde as expropriações são difíceis de fazer, por via duma legislação que defende o cidadão individual, e eternizar uma reconstrução rápida da nova estrutura a ligar os dois troços da margem pendurados nas encostas de cada lado do vale, repondo em funcionamento a autoestrada das flores que liga a Península Ibérica a todo o sul da Europa, de Lisboa a Marselha, Monte Carlo, Viena ou Roma.
Sem obras, uma boa parte da cidade fica fechada ao trânsito e sem segurança, toda a zona continua vedada à entrada das pessoas, isto é, uma cidade morta onde os setenta mil habitantes do bairro atingido deixaram as suas casas e pararam no tempo. Movimento da urbe, negócios, comércio e indústria paralisadas. Ao mesmo tempo, o fluxo de camiões que vai sendo desviado em alternativa pelo centro da cidade cria condicionamentos ao trânsito e ao porto de mar, no escoamento dos produtos via marítima e terrestre. Génova é o maior complexo portuário italiano. Entretanto um governo de direita e populista, recentemente eleito, olha de Roma pelas frestas do Coliseu com a promessa que fez há um mês, na altura do desastre, de mandar a esmola de 30 milhões de euros para ajudar a cidade enquanto inscreve 10 biliões de euros no orçamento de 2019, para pagar um rendimento mínimo de 780 euros a quem não trabalha no país, fugindo ao cumprimento das regras europeias que pedem á Itália um deficit de 1,6%, em vez dos 2,4% que a medida aprovada vai implicar. Com a agravante de se dar dinheiro para sobreviver, mas não a cana de pesca, como preconizava o velho Mao.
Neste ponto critico, Bruxelas olha em desespero de causa, juntando a Itália e a Hungria ou a Polónia no clube dos descontentes políticos ou mesmo dos que ultrapassam as condições básicas dos desígnios europeus do tratado de Lisboa, e os genoveses descontentes correm o risco de ver acontecer na sua cidade o que aconteceu à cidade de Áquila, na região dos Abruzos, que depois do cismo que em 2009 a destruiu está longe da sua reconstrução total.
Dentro de uma Europa que a nível externo perdeu o protagonismo que teve no mundo nos últimos quinhentos anos, com as duas guerras mundiais, hoje ela é praticamente colonizada pelos Estados Unidos, para além de que a nível interno em nada avançou, depois do euro e da união monetária para construir um bloco suportado, forte, livre e com uma voz comum. Mais ou menos como nos períodos anteriores às guerras, cada membro comanda na deriva de si próprio o seu próprio país. Os Balcãs não estão longe do barril de pólvora que foram e o cidadão está longe do projeto humanista dos primeiros tempos da comunidade. Funcionários e políticos vivem afogados em burocracia e os órgãos eleitos são meras figuras de retórica, sem influência nem poder de decisão para além das toneladas de papel que estorvam o europeu.
É neste cenário que uma Europa sem ideias tem assistido em silêncio á deslocalização das suas empresas, consequentemente da riqueza, dos empregos, do desenvolvimento. Que tem interferido militarmente em alguns pontos críticos do mundo de hoje, muitas vezes em conflitos de interesses duvidosos, e a receber desses sítios, desestabilizados por terceiros, milhares de refugiados entre os que são e os que não são. Uma Europa pronta á solicitação da banca, do banqueiro, de offshores, e ao mesmo tempo alheia ao mundo do cidadão, das famílias, do trabalho, do apoio aos mais frágeis, sem resposta nem estratégia para o desemprego que grassa na União. Uma Europa liberal protegendo o individualismo sem regras nem justiça e esquecendo o coletivo em sociedades que se vem transformando em iliberalismo ronceiro, onde cabe o populismo anárquico, o fascismo, os camisas negras nazis. Paradoxalmente no respeito por regras duma democracia hoje posta em causa, por políticos que sobem ao poder através da legitimidade do voto. Uma direita retrógrada, brutal e portadora dos genes das ditaduras passadas vai ganhando terreno por culpa dos maus governos da democracia, porque os políticos a meteram na gaveta pensando só em si próprios e esquecendo as pessoas. xa0
Uma Europa humanista transforma-se numa Europa de classes, abrindo as portas ao descontentamento e ao crescente populismo que vai alargando os braços e conquistando aderentes. Até onde, é uma incógnita, mas não se queixem depois quando isso acontecer. A Itália e o seu governo atual parece um exemplo vivo desse triunfo espontâneo dum populismo que não sabe o quer e uma direita xenófoba que rompe caminho a pulso. Porquê? Porque a realidade do dia-a-dia penaliza o cidadão desiludido e desarmado, que opta pela ilusão das palavras e das promessas impossíveis.
xa0
Génova, Outubro,2018
Autor: Jornal da Mealhada
