Crónicas Locais – AINDA A CRISE E A CRISE
A crise da dívida, ou a divida da crise, a ordem dos factores é arbitrária, atira os portugueses para mais […]
A crise da dívida, ou a divida da crise, a ordem dos factores é arbitrária, atira os portugueses para mais um ano de cinto apertado. Tudo leva a crer que 2014 vai ser pior que o ano que acabou. Alguns indícios de melhoras, explorados com o costumado despudor pelos políticos não são mais que isso mesmo, especulação e despudor ao serviço da crença e da mentira que tem mantido o cidadão na ignorância dos factos e das contas. Às vezes ouço mundo fora que os portugueses se vão revoltar contra o algoz, mas isso é um fenómeno não só improvável como impossível. O português está de tal modo acomodado aos desmandos do poder através dos séculos, que entrega à sorte, à sina, ao fado, e ao medo a justificação simples da sua complicada tragédia. O comodismo e a incapacidade de reacção tornaram-se coisas genéticas que permitem às elites institucionalizar o lwo cost da pobreza. A história adquiriu mais uma vez o direito de lhes chamar geração de incapazes pois trata-se dum problema de fundo, não de conjunturas. Depois da canela, do oiro, da emigração, dos dinheiros da CEE, a crise veio pôr de novo a nu a pequenez da nossa dimensão como aglomerado de pessoas. Somos dez ou quinze milhões dessas pessoas na mão duns poucos doutores , curiosos iluminados cujas doutorices domésticas tem servido apenas para negar uma pátria digna aos portugueses. Este é um país sem objectivos, sem estratégia nem cidadania, um improviso entre a África e a Europa onde reina anarquia e o salve-se quem puder. Heróis do mar sem proveito nem glória ao serviço duns tantos conservadores, feudais da cabeça, do tronco, dos membros.
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Artigo de Ferraz da Silva, publicado, na íntegra, na edição impressa de 8 de janeiro.
Autor: Jornal da Mealhada
