Crónicas Locais – MEIA MARATONA DE AFECTOS
A Paula é tripeira de gema e tripeira de modo e voz. Nunca a tinha visto em dias da minha […]
A Paula é tripeira de gema e tripeira de modo e voz. Nunca a tinha visto em dias da minha vida nem tão pouco o contrário acontecera, mas ao primeiro contacto ficamos cientes que a nossa formula psíquica encaixava uma na outra e que o primeira vez não era mais que uma continuação do que nunca começara. Um interruptor estabeleceu de forma automática o diálogo sem princípio nem fim que vigorou a partir da meia maratona com que encetamos a relação numa abertura livre e profícua. Ao sinal de partida perdi-lhe o marido e a filha que me tinha apresentado, mas no fim da corrida quando surgiu enlameada na sua camisola amarela depois de duas horas e meia de voltas pela cidade reencontramo-nos todos para a fotografia da praxe. É um ou uma dos muitos emigrantes portugueses forçada pela mãe pátria a fugir do leito materno para sobreviver mundo fora, uma catástrofe que tem quase tantos séculos como a existência desta coisa a que chamamos Portugal, nosso, de facto um Portugal que não é nosso mas de meia dúzia de aventureiros que teimam descaradamente em secar a vida dos outros concidadãos.
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Artigo de Ferraz da Silva publicado na edição impressa de 28 de maio.
Autor: Jornal da Mealhada
