CRÓNICAS LOCAIS: O MEU MURO DE BERLIM
A minha rua é uma estrada. Uma recta, concretizando, entre dois muros. Chama-se rua da Pampilhosa e inicia-se no Alto […]
A minha rua é uma estrada. Uma recta, concretizando, entre dois muros. Chama-se rua da Pampilhosa e inicia-se no Alto da Maia, no Luso, junto ao Hotel Alegre. Depois faz uma curva larga para a esquerda e atira-se por trezentos metros de recta até à minha casa, onde curva de novo á esquerda e segue até à Rua do Luso, na Pampilhosa. Não faço ideia onde entroncam uma na outra entre os oito quilómetros do percurso que medeia a distância entre um lugar e outro, nem mesmo se se chama assim até ao seu destino e isso pode muito bem acontecer, mas o que na realidade acontece é que na recta inicial está encravada entre casas e muros, não deixando para os peões uma zona exactamente para os peões, uma zona pedonal. Na recta final, já na Pampilhosa porém, a minha rua tem um larguíssimo passeio para peões do lado direito de quem vai e ainda bem, apesar de servir apenas meia dúzia de famílias, nada comparado com as mais de setenta famílias que utilizam a minha rua do lado do Luso, fazendo contas para cima de quinhentas pessoas crianças incluídas. Ora um dia destes, o muro da minha rua apareceu pintado. Pintado de branco. Parecia um véu, tão puro e leve como a água que nos tiram. Disse para os meus botões que pintar o muro não adiantou nada às necessidades do muro, que por acaso são as minhas e também as dos mais de quinhentos habitantes que moram para além da minha casa. Porque os automóveis não respeitam nada nem ninguém e passam ali a grande velocidade, é preciso morrer alguém para se lembrarem do assunto e gritarem aqui Del Rei!
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Artigo de Ferraz da Silva publicado na edição impressa de 20 de agosto.
Autor: Jornal da Mealhada
