Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018

Culto da Imbecilidade

Culto da Imbecilidade

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Culto da Imbecilidade

Não, não quero ser um dia Presidente da Câmara de Mortágua e, mais evidente ainda, parece-me que não, que não […]

Não, não quero ser um dia Presidente da Câmara de Mortágua e, mais evidente ainda, parece-me que não, que não estou a fazer rigorosamente nada nesse sentido. A menos que fosse um palerma, coisa que creio estar longe de ser, deveria por esta altura estar a fazer precisamente o contrário do que tenho mostrado, caso fosse esse o meu desígnio. Não, não se trata de um cargo que me fascine particularmente e não, também não considero que, pelo menos nesta fase da minha vida, tenha sequer perfil para o poder legitimamente ambicionar.

Começo por este parágrafo em jeito de declaração para que alguns entusiastas detractores locais o possam inclusivamente recortar, colar e emoldurar para memória futura. Têm sido tantos a insinuá-lo e a interpelar-me directamente por essa mesma razão que eu nem sei se o hei-de considerar ofensa ou lisonja. Certo dia referi, e não tenho qualquer tipo de problema de o recordar, a minha vontade de coordenar politicamente a secção local do meu partido, mas creio que já nem essa espinhosa missão me incita por aí além, tamanhos são os distanciamentos que se verificam. Hoje, não me parece que isso venha a acontecer. Amanhã, logo se verá. A verdade é que eu ando cansado e desiludido com a nossa democracia, apesar de não ter desistido dela. Em Mortágua, em Portugal, na Europa e no Mundo. A democracia está doente.

Ainda recentemente, depois de reparar no décimo aniversário da placa comemorativa do lançamento de uma auto-estrada, que nunca chegou a ser construída, bem escarrapachada na porta principal da casa que é de todos nós, aqui na terra, não consegui evitar mais um desabafo, daqueles que vêm lá mesmo do fundo. Não é o exercício de vaidade da placa ou dos falsos epítetos de ambos os protagonistas que me incomoda particularmente, mas sim a adoração de que continuam a ser objectos, apesar de tudo o que se sabe, pelo menos do que já veio a público, porque parece que pelos vistos até há mais. São coisas como esta, que não têm outro nome, coisas pequenas mas ao mesmo tempo enormes, que me fazem sentir uma aversão cada vez maior à política e aos políticos em geral, à política e a (alguns) políticos de Mortágua, à política autocrática e aos respectivos politiquinhos muito pequenininhos que a seguem, como no meu partido… Enfim, estou cansado da mediocridade e da cretinice, mas consigo sentir-me ainda mais saturado do culto que se verifica a essa mesma mediocridade e cretinice. O culto da imbecilidade. Há certas e determinadas coisas que basta constatar, nem é preciso pensar muito sobre elas. Quando se fala na necessidade de uma limpeza geral, numa varridela de alto a baixo sem olhar a nomes e a estatutos, é precisamente por aqui que se devia começar. Nos criminosos glorificados e no culto que se verifica a esses mesmos criminosos glorificados. Nos convenientes e coniventes seguidores de rabo preso e na alma resgatada e dependente dos que também a eles os seguem cegamente… Aqui no meu Concelho, no Distrito, mas também no País inteiro, com o peixe grande, gordo, sujo e nojento a crescer à respectiva escala. Os tais poucos que manietam de todas as formas e feitios aqueles que são mais, muitos mais. A seita dos tais criminosos glorificados que dão conferências, de um lado, ou que fazem comentários despudorados no Facebook e intervenções pseudo-justicialistas e já sem um pingo de noção na Assembleia Municipal, do outro. Enfim. É a falta de vergonha na sua essência mais pura. É a tal falta de vergonha na cara de quem, não estando onde devia, que era atrás das grades, ainda tem a lata de tirar o nariz de casa e andar por aí na rua armado em vítima ou, pior ainda, em exemplo. Uma sintomatologia evidente dos criminosos glorificados, que é causada pelo respectivo culto que é conferido a esses mesmos criminosos glorificados. O tal culto da imbecilidade. Pobres de espírito que não têm a menor capacidade para conseguirem perceber as bestas pérfidas e indecentes em que se tornaram com o tempo, com o exercício de um poder demasiado prolongado e com o acéfalo aplauso dos interessados que comeram do prato que por eles lhes foi posto à frente.

Contem comigo para continuar a denunciar o lodo e a clamar pela respectiva justiça. Há quem diga que eu fui escorraçado do meu partido. Escorraçado?! Eu é que automaticamente me escorraço, que é bem diferente! Juntar-me?? Nunca! Se não aplaudo nem glorifico criminosos e respectivas associações criminosas, muito menos poderia algum dia vir a fazer parte delas. O problema é cultural, pelo que só por aí mesmo poderá ser combatido… pela via cultural. Por isso é que é preciso que alguém resista, que alguém combata, que alguém exponha… E esse é o caminho que eu escolhi. Esse é que é o propósito que melhor honra o meu nome. Juntar-me?? Nunca! Não me junto mas também não se livram de mim… Até porque não há percurso mais digno do que o da independência de carácter e o da verticalidade nas convicções. É isso que hoje em dia se torna raro de ver. Muito raro. E é precisamente esse o desígnio que incessantemente persigo e perseguirei. Confiante e orgulhosamente desalinhado do que recuso por sistema… confiante e orgulhosamente desalinhado do que recuso e continuarei a recusar por sistema! Militância activa e interventiva. Até porque ordinário não é o que se engana, mas sim o que persiste militantemente no engano.

Para os mais curiosos, não, não é isto que me dá prazer… O que me dá alegria verdadeira é a minha família, primeiro, e alguns dos meus amigos, depois. Ser cúmplice dos meus queridos alunos, tanto dos miúdos como dos mais graúdos. Fazer música. Brincar com os meus cães. Jogar umas futeboladas à segunda-feira. Acompanhar o meu Benfica. Cozinhar uns pratos típicos que me sabem ao céu e saborear umas pingas boas que me aquecem a alma e o coração. Agora, isto? Isto nem me dá alegria nem prazer… para mim, é uma espécie de missão. Ser a voz dos que não têm voz. Dizer ou escrever o que todos pensam mas ninguém tem coragem de dizer ou escrever. É isto que me faz sentir limpo e tranquilo, de peito feito e cabeça bem erguida. Sentir-me-ia sujo e desconfortável era se endeusasse criminosos, ou se recusasse pensar pela minha própria cabeça, por manifesta incapacidade ou por mera carneirice seguidista e irracional. A democracia está doente mas não é dessa forma que vou contribuir para a curar.

Ascender politicamente por via do culto da imbecilidade?

Não, obrigado. Isso não é para mim.

Autor: Jornal da Mealhada

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