DESEUROPA
Gerado, porventura, nas ágoras das ruas e praças atenienses, embalado pelas cálidas águas mediterrânicas, batido pelas bravias e gélidas ondas […]
Gerado, porventura, nas ágoras das ruas e praças atenienses, embalado pelas cálidas águas mediterrânicas, batido pelas bravias e gélidas ondas nos negrumes setentrionais da britânia e das terras dos vikings, o espírito europeu impôs-se na Magna Carta e, atravessando o Atlântico na Myflower, foi respirar a liberdade nos novíssimos e impolutos horizontes do novo mundo.
Na gestação e turbulências da revolução, inspirou a Enciclopedye e, com ela, deambulou por Paris e, pela pena de Jean Jaques Rosseau, escreveu a ideia lapidar da sua essência: todos os homens (homens e mulheres, claro está!) nascem iguais em direitos e deveres, e gritou bem alto a mítica trilogia da Liberdade, Igualda e Fraternidade, por ela dando substractum à Constituição Francesa, à Constituição Americana e a tantas outras segundo as quais todos os homens são iguais perante a lei.
Sacudida pelas invasões de estranhos e desvairados povos, dilacerada por bélicas e sanguinárias hecatombes de estúpidos fanatismos e utópicos imperialismos, a Europa chegou aos nossos dias qual complexo mundo multicultural assente em ideais plasmados em milénios de pensamento democrático, de permanente luta contra a tirania e o obscurantismo.
E foi à sombra desse sentimento basilar que a Europa se foi erguendo das cinzas das guerras filhas de pérfidas magalomanias de condotieris, de imperadores, de kaisers e fuhrers, de caudilhos e outros tiranos e foi reconstruindo a paz na histórica Sociedade das Nações, na Organização das Nações Unidas, culminando com a consagração do projecto europeu no Tratado de Roma.
A Europa de Adenauer, a Europa de Schuman e Monet, a Europa de Bandt, Palm. Schmidt, a Europa de Kohl, Miterrand, Gonzalez e Soares, a Europa da solidariedade, a Europa dos cidadãos eclipsou-se. Abastardou-se.
Hoje temos uma Europa de burocratas e tecnocratas na prossecução dum mercantilismo selvático na qual a soberania dos cidadãos foi substituída pela suserania do capital, os ideais de solidariedade e partilha por rigorosas contas de deve e haver. Uma Europa que fecha as portas, que ergue muros, que expulsa gente que foge espavorida da miséria e da morte por guerras que ela própria ajudou a semear.
As famílias partidárias que, em solidária perspectiva, davam vida e dignidade ao Parlamento Europeu depressa se transformaram em grupos de interesses congeminados no poder espúrio e apátrida das multinacionais do capital e dos nublados negócios que a globalização potenciou. A direita europeia cedo apadrinhou e hegemonizou o processo e encetou com êxito a negação absoluta dos valores do genuíno espírito europeu: liberdade, igualdade e fraternidade.
Em Atenas, com o Syriza, as ágoras da revolta vibraram nas ruas e praças contra o nojento e chantagista ultimato de Bruxelas/Berlim enquanto em Lisboa, na esteira das eleições de Outubro, da coutada da Troika no Terreiro do Paço, em jeito de pré ultimatum saía nota intimidatória qual sério aviso a hipotéticas veleidades esquerdistas de outros pequenos países em situação difícil.
Quando vemos, ouvimos e sentimos na carne e no mais profundo da nossa alma de cidadão português, europeu convicto, a guerra surda e suja da Comissão a torpedear um governo legítimo que também ousou pôr em causa as autoritárias medidas de austeridade, quando pressentimos o tendencioso e tenebroso comportamento dos domésticos desapossados do poder junto dos burocratas de Bruxelas no sentido de complicarem a vida ao executivo em exercício, hemos de concluir que caminhamos para uma DESEUROPA sem pudor, sem projecto, sem futuro, dominada por uma horda de corruptos (declarados e encapotados) e engaiolada numa trama de interesses e de normas que nada têm a ver com o sonho, o espírito e os verdadeiros alicerces morais e culturais da Europa dos cidadãos.
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Opinião de Renato Macedo de Ávila
Autor: Jornal da Mealhada
