Domingo, 17 de Julho de 2016

Disponibilidade Intelectual

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Disponibilidade Intelectual

É verdade, meus amigos. Ele chegou. Tardou, mas chegou. Depois de 5 meses inteiros de precipitação ininterrupta (!), e a […]

É verdade, meus amigos. Ele chegou. Tardou, mas chegou. Depois de 5 meses inteiros de precipitação ininterrupta (!), e a exclamação é perfeitamente justificada, como aliás todos sabemos, o calor voltou com força e com ainda mais vontade de justificar as estatísticas que nos chegam ano após ano, e que nos dizem que o aquecimento global deixou de ser uma tenra novidade para passar a ser uma trágica certeza. 2015 é o ano mais quente da nossa História desde que há registos, mas pelos vistos será glória breve, isto porque 2016 promete já bater todos os recordes. Para todos aqueles que, como eu, gostam de sol, praia ou rio, tronco nu e bebidas frescas, isto até podia parecer uma daquelas notícias boas, das que nos fazem sorrir com vontade, mas a triste realidade é que isto vai acabar por se tornar num problema ainda mais grave do que a comunidade deste nosso pequeno mas maravilhoso planeta antecipa. Os números são claros, e consequentemente esmagadores, lida a sina. Desde 2014 que os anos vão batendo os recordes todos de temperatura, numa tendência de crescimento frenético que não tem um fim à vista. Todos reconhecem o problema de todos, capaz de condenar inclusivamente e de forma irreversível as gerações vindouras, mas não há quem queira de facto inverter o critério principal da tomada de decisões, que é sempre o económico, por isso se atrasam todas as reformas energéticas e mais algumas que sabemos serem precisas, mas que um dia se hão-de lamentar por não terem sido tomadas. Falta-nos consciência global. Provavelmente o maior problema de todos, a chamar-lhe um nome. Consciência global. Revolução energética, precisa-se!

Apesar de cada vez mais sinistro, o calor é um incomensurável prazer. Desperta o ser humano para as sensações, e essencialmente para a satisfação que delas recolhemos. Das boas, claro, até porque não é das más que se reza a História. Daí a tolice habitual desta época, vulgarizada como uma silly season que alegra o mais despreocupado cidadão do mundo, mas que por vezes até entristece o mais fervoroso nacionalista, nem que seja por razões meramente linguísticas. A vida está aí para todos os que sabem, ou ainda conseguem continuar a saber, vivê-la. A silliness pode parecer ligeireza, algo vexatória até, mas carrega consigo um enorme significado de virtudes várias. A despreocupação devia ser uma disciplina de escola. Até porque muito mais importante do que tentar educar pessoas eventualmente perfeitas, importa formar pessoas felizes, dado que o segundo obectivo é possível, e o primeiro não. O cliché pessoano é demasiado tentador, talvez por isso se tenha tornado numa vulgarização muito valiosa, daquelas que há poucas, mas a verdade é que é de sensações que a gente vive, e de que a gente cria memória, não é de automatismos cerebrais pseudo-brilhantes que se destacam claramente no progresso do mundo e das máquinas, por isso saliento aqui a urgência de nos exprimirmos cada vez mais com o coração, e com a emoção que apenas dele sai. Somos todos demasiado únicos para nos mecanizarmos em absoluto. Até porque a tal consciência global que se exige poderá advir do sentir dos dirigentes máximos dos G´s deste mundo, nunca do pensar.

Por isso confesso-vos, meus amigos. Considerem desde já um homem intelectualmente indisponível na escrita destas palavras que vos chegam à vista. Intelectualmente indisponível com propósito, e com vontade. Vou tentar continuar a sentir o calor e as boas sensações que só ele nos traz, procurando dessa forma que o espírito jovial continue a influenciar a criatura humana que se movimenta, e que por essa via se interrelaciona positivamente com os seus próximos, procurando coisas boas e afastando-se dentro do possível de todas as más. Até porque isto me parece cada vez mais curto do que o que parece, apoiando-me na ainda pequenita experiência que tenho mas sobretudo também na que me transmitem os muito sabidos mais velhos. A nossa realidade finita implica que haja alegria, e que lutemos por ela. Nem que isso implique uma menor disponibilidade intelectual. Até porque a esmagadora maioria das melhores memórias que tenho se deram em momentos de menor fulgor racional. O que importa verdadeiramente é sentir.

Da indisponibilidade intelectual global é que eu tenho medo, mesmo. Essa é a que realmente mais me preocupa. É daí que vem o verdadeiro mal. Um mundo cada vez mais dos que pensam, e menos ainda dos que conseguem sentir. Daí a urgência de acabar com a galopante despersonalização técnica e, infelizmente, já generalizada, e apostar um pouco mais na realização humanista, que ainda estamos todos para conhecer na sua plenitude. Precisamos tanto de que esta ainda venha a acontecer. Pena que, como tantas outras coisas, ela tenha que surgir pela tão aflita necessidade, que acaba sempre por aguçar o inevitável engenho. Oxalá que assim seja. Enfim.. são reflexões intelectualmente disponíveis que me desagradam, dada a minha indisponibilidade emocional para as saber gerir. Não interessa pensar nisso. Não vale a pena pensar nisso.

Silliness oblige.

xa0

Artigo de Mauro José Tomaz

Autor: Jornal da Mealhada

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