Sexta-feira, 29 de Julho de 2016

Dor e sofrimento através dos tempos

Dor e sofrimento através dos tempos

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Dor e sofrimento através dos tempos

São ambas obras da Natureza, disso não tenhamos dúvidas. Quanto à dor nem sempre é fácil reconhecer a sua importância, […]

São ambas obras da Natureza, disso não tenhamos dúvidas. Quanto à dor nem sempre é fácil reconhecer a sua importância, serve, por exemplo, de alerta para evitar queimaduras graves e apontar para a localização de afecções, tornando mais fácil combatê-las.

Por vezes a dor é insuportável, mas de fácil solução. Recordo, a propósito, um episódio dos muitos que assisti em Angola. Chamado à noite para assistir a um soldado que dormia numa camarata, na companhia de duas dezenas de camaradas, a poucas centenas de metros da minha residência em Calulo, onde era delegado de saúde e prestava também assistência aos militares; o soldado gritava, não deixando dormir os companheiros e contorcia-se com dores, agarrados aos testículos.

Segundo rezam os livros trata-se de dor intensíssima devido ao torsão de um cordão espermático e que é urgente distorcer para suprir a dor e evitar consequências futuras. Era só distorcer, mas qual e para que lado? Era a primeira vez que assistia a caso semelhante. No meio da gritaria rodei para um lado à sorte. Acertei em cheio e de imediato o soldado parou de se queixar.

O pelotão que assistiu em alvoroço à manobra ficou admirado com a rapidez e eficácia da solução e aliviados dormiram o resto da noite descansados. O mesmo não aconteceu comigo; acordado a meio da noite e perante aquele espectáculo, foi difícil adormecer.

Outro exemplo, este até mais frequente, mas dramático, também com uma solução única, a amputação que acontece nas guerras, em desastres em que há esmagamentos e sobretudo nas infecções com gangrena ou alterações vasculares.

Em primeiríssimo lugar está a salvar a vida, com consentimento do doente ou de alguém responsável.

Com o advento dos anestésicos modernos, em que a pessoa perde instantaneamente a dor e o conhecimento, é como se desligasse uma luz e de repente surge a escuridão e o nada.

Nos primórdios da anestesiologia, não havia anestesistas, era o cirurgião que orientava tudo e usavam o clorofórmio e de preferência o éter por inalação em máscara especial. Cheguei a usar o éter no mato em Angola, longe dos centros cirúrgicos em amputações urgentes e necessárias para salvar a vida.

Recordo ter amputado uma perna ao nível da coxa, uma outra abaixo do joelho e desarticulado um braço, todos com gangrena avançada. São intervenções muito desagradáveis que só se fazem por imposição do dever e extrema necessidade quando não há outra solução.

Na antiguidade quando as amputações tinham de ser feitas em especial nas guerras e ainda não havia anestésicos, os cirurgiões usavam técnicas baseadas na rapidez para diminuir o tempo de sofrimento dos pacientes. Assim, depois de laquearem os grandes vasos, de um só golpe, conseguiram seccionar toda a massa muscular usando também facas especiais. Mais recentemente num hospital de campanha na segunda Grande Guerra, por faltaram os anestésicos, experimentaram injectar vinho do Porto intravenoso num paciente e, segundo consta, com bons resultados.

Sempre foi preocupação dos médicos, curar as doenças, suprimir a dor e o sofrimento, conforme os recursos da época, tratando de assegurar a doença, o bem-estar na medida do possível, mas há casos difíceis, mesmo recorrendo aos modernos medicamentos e ao recurso à morfina e derivados e a equipas multidisciplinares incluindo vários especialistas.

O mecanismo da dor é complexo e tem muito de psicológico. Há pessoas corajosas que suportam dores intensas sem anestesia e outras pusilânimes que, para tratar uma simples carie, só ouvir o ruido da broca lhes causa mau estar. O nosso cérebro fabrica a endorfina, uma hormona semelhante à morfina, que ajuda a suportar a dor. Quando se é operado aos ossos ou intervenções demoradas sob anestesia geral o cérebro deixa de fabricar a endorfina porque não sente a dor.

Ao acordamos da anestesia surge a dor intensíssima porque o nível da endorfina baixou, havendo necessidade de dar analgésicos potentes, mas, entretanto, o cérebro volta a fabricá-la acabando por dispensar o uso dos analgésicos. Há também o efeito da sugestão, até da hipnose, usados por alguns, para eliminar a dor. Já referi isto em alguns dos factos mencionados num livro meu intitulado Médico Todo o Terreno.

Resumindo: é impossível suprimir totalmente a dor e em especial o sofrimento que, quer queiramos quer não, fazem parte das nossas vidas e também para os crentes da existência de uma vida para além da morte, em que a alma ou espírito, como lhe queiram chamar, necessita de se purificar para remissão dos pecados, aqui, ou no purgatório.

Para os espíritas é compreensível que o espírito reencarne para completar o aperfeiçoamento. Até parece lógico e assim explicam o porquê de vidas com pouca duração e muito sofrimento, que terão também a ver com os desígnios de Deus.

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Opinião de Virgílio Brêda

Autor: Jornal da Mealhada

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