É a Vida
É a Vida! Não conheço nenhuma expressão mais terrível do que esta. É a vida! é o que se diz […]
É a Vida!
Não conheço nenhuma expressão mais terrível do que esta. É a vida! é o que se diz a alguém plenamente desconfortado, em relação a um acontecimento ou circunstância duríssima, e com certezas de inevitabilidade. É exactamente o que dizemos de uma forma natural e espontânea quando não temos, de facto, nada mais para dizer. Partilha-se o olhar sofrido, acarinha-se o rosto de quem convalesce e atenua-se um pouco a preenchedora angústia com um abraço forte, sentido. Muitas vezes, é tudo o que podemos fazer, estar. Nesses momentos de grande dificuldade, importa sobretudo sentir o conforto possível de obter daqueles que genuinamente connosco partilham não só as alegrias mas também as tristezas, o conforto daqueles que caminham a nosso lado.
Penso no caso do filho do futebolista Carlos Martins e não deixo de ficar sensível ao seu sofrimento, nem deixo de respeitar imenso a exposição pública que decorreu desta triste realidade que agora é a sua. O filho de Martins, Gustavo, sofre de aplasia medular – uma doença rara que resulta de uma disfunção da medula óssea – e necessita urgentemente de um transplante. O jogador expõe-se como mais uma forma desesperada de procurar a salvação do seu querido, pelo qual com certeza daria a própria vida, mas também consciente e em solidariedade com todos os que passam de forma anónima pelo mesmo. Após o mediático apelo, só em Lisboa a recolha de sangue subiu de 5 dadores/dia para 500, segundo Abílio Antunes, o presidente da ONG Médicos do Mundo. Verdadeiramente notável. Um prometedor aumento de esperança para esta e muitas outras crianças.
Se já imaginamos como pavorosa sequer a ideia de passar por uma situação do género, então a morte de um ente querido será a que provoca a pior de todas as convalescenças, sobretudo quando surge inesperadamente, ou de uma forma não natural. São situações absolutamente irreversíveis que causam um impacto brutal nos que cá ficam, moldando-lhes as personalidades e mudando-lhes as suas vidas para sempre. Mais longe ou mais perto de nós, acontece a toda a hora e a praticamente toda a gente, mais tarde ou mais cedo, pois muito poucos serão os que vivem descansados sem fantasmas, sem feridas profundas ou com estas já perpetuamente cicatrizadas.
Dizia Machado de Assis que suporta-se com muita paciência a dor no fígado alheio, ou como descomprometidamente diz o povo, com o mal dos outros posso eu bem!, mas será que é bem assim? Dependerá sobretudo do grau de humanismo e da riqueza da dimensão moral de cada um, mas nem o mais frio dos indivíduos se abstrai por completo do imenso sofrimento de alguém que lhe é, de alguma forma, próximo. Todo aquele que já sofreu verdadeiramente por uma tragédia daquelas que abanam acaba por sentir-se também um pouco na pele do outro que agora a sente, quem partilhou dor sabe perfeitamente que assim é. É nesses precisos momentos que as pessoas mais se aproximam, e mais sentem o calor que lhes é dirigido, um calor que está longe de curar todos os males, mas que lá no fundo ajuda a suportá-los, e muito!
Apesar de pouco podermos fazer perante alguns obstáculos que a vida nos vai apresentando, é precisamente nessas alturas que se reveste de especial importância dar e partilhar. Muito mais do que o objecto, importa dar e partilhar afecto. Estar com o outro, mostrar que realmente nos importamos, que fazemos parte.
Em vésperas de um Natal que será com certeza dificílimo para muitos, fica a sugestão: ofereça cartões alusivos à época, pegue numa esferográfica e abra o seu coração. Além da poupança material, nunca como hoje foi tão importante transmitir aos seus o que realmente sente por eles.
Sim, hoje, porque nunca iremos saber se haverá um amanhã, ou como ele será. Por isso, nunca deixe nada por dizer.
Dar é tão bom ou ainda melhor do que receber.
Mauro Tomaz
PERSPECTIVAS
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Autor: Jornal da Mealhada
