Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2015

Entrevista ao Padre Carlos Alberto da Graça Godinho

Entrevista ao Padre Carlos Alberto da Graça Godinho

Região

Entrevista ao Padre Carlos Alberto da Graça Godinho

Há que racionalizar estruturas, programas e recursos, pondo-os ao serviço de todos Há dezasseis anos que está no concelho da […]

Há que racionalizar estruturas, programas e recursos, pondo-os ao serviço de todos

Há dezasseis anos que está no concelho da Mealhada, sendo, neste momento, pároco das freguesias do Luso e da Pampilhosa, tendo, no passado, sido em Casal Comba e até na Mealhada. Falamos do Padre Carlos Godinho que, entre muitos assuntos, ao Jornal da Mealhada, assume defender Unidades Pastorais, garantindo que com um Conselho Pastoral comum e com equipas de dinamização pastoral setoriais, igualmente comuns, permite uma maior comunhão pastoral, com a partilha de serviços e ministérios.

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Que objetivos centrais tem a Igreja para a celebração do Ano Jubilar da Misericórdia, que já começou e só termina em novembro do próximo ano?

Os objetivos essenciais para a celebração do Ano da Misericórdia são aqueles que o Santo Padre define, na Bula de proclamação deste ano – «O Rosto da Misericórdia»: fixar o nosso olhar em Deus Misericordioso, para nos tornarmos nós mesmos, cristãos, sinal eficaz do agir do Pai. Ou seja, dois grandes objetivos: redescobrir Deus como Pai misericordioso, acolhendo o Seu amor; e viver o amor para com todos os homens à imagem deste amor de Deus Pai. Daí que o Papa nos convide a redescobrir o sentido das obras de misericórdia, para as pormos em prática, ao longo de todo este ano. Somos colocados diante de Deus que é «Amor», para que acolhamos e vivamos esse mesmo amor. No contexto cultural atual a palavra misericórdia pode surgir com um certo pendor negativo, na sua significação de compaixão, perdão ou piedade. Na tradição bíblica e, por sua vez, na tradição cristã, a misericórdia é uma atitude positiva, pois resulta de uma vivência amorosa que nos aproxima do outro para o renovar e fazer viver, transformando-se em fonte de alegria, de serenidade e de paz, como refere o Papa na Bula de proclamação deste ano. Na verdade, é um ano extremamente desafiante no sentido de vivermos o que nos é essencial o amor a Deus e o amor ao próximo.

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É expetável que no final deste ano jubilar a Igreja Católica faça alguma espécie de atualização relativamente a temas como a homossexualidade, a reintegração de recasados nos sacramentos, a maçonaria e afins?

Não sei propriamente a que atualização se refere: se doutrinal ou se pastoral! Diria que do ponto de vista doutrinal não é expectável que se faça qualquer atualização, pois a doutrina da Igreja não se altera na sequência da vivência de um Jubileu; essa atualização compreende outros espaços e quadros de reflexão, dependentes do magistério da Igreja. Agora, sem dúvida que se espera uma grande renovação pastoral: vivida no acolhimento, na aceitação e acompanhamento das pessoas, no acolhimento dos seus quadros existenciais; mas igualmente na ajuda oferecida para que as pessoas se reencontrem a si mesmas e reencontrem os valores fundamentais que dão espessura autêntica à sua vida pessoal e comunitária. Este tempo de misericórdia também serve para refletirmos sobre o que convém, ou não, à pessoa na perspetiva da sua autêntica e plena realização. Mas terá de ser, sobretudo, um tempo de acolhimento, de escuta e de ternura.

Quanto aos elementos que elenca temos de os distinguir, até porque alguns são do âmbito do foro íntimo da pessoa e outros são do âmbito da organização em sociedade. Quanto à prática da homossexualidade, ela é vista pela Igreja como uma realidade intrinsecamente desordenada, segundo o Catecismo da Igreja Católica. Contudo, o mesmo Catecismo considera que a génese psicológica destes atos está ainda, em grande parte, por explicar; exigindo aos cristãos o acolhimento respeitoso, a compaixão e a delicadeza para com quem é homossexual. Questão mais aguda é a da reintegração dos divorciados recasados. Sem alterar a doutrina fundamental da indissolubilidade do matrimónio, o Papa tem tendido a expressar uma atitude de grande acolhimento para com os casais recasados. Mas essa preocupação de acompanhar casais de divorciados recasados já se vive na Igreja. Novo é o modo como o Papa nos situa face a estas questões, bem à maneira do Evangelho: colocando as pessoas em primeiro lugar, antes da doutrina. Naturalmente sem a negar. A questão do acesso aos sacramentos, por parte dos recasados, foi profundamente debatida no último Sínodo dos Bispos. Esperemos o que o Papa nos possa dizer sobre a práxis pastoral, na Exortação Apostólica que certamente publicará. Esta questão não pode, ainda, deixar de contar com a consciência dos próprios, atendendo à diversidade de situações com que nos confrontamos.

Quanto à Maçonaria esta não está, por certo, à espera de qualquer aceitação por parte da Igreja. A história da Maçonaria é curiosa e cheia de tensões na relação com a Comunidade Eclesial. Iniciada em Londres, em 1717, com a sua Constituição original redigida por um clérigo Anglicano James Anderson -, tornou-se particularmente antirreligiosa e anticlerical em França, nos finais do séc. XVIII e, muito especialmente, no séc. XIX. Atualmente seguimos caminhos diversos. E não se trata de uma simples oposição. Existem fatores de diferenciação profunda que não podemos menosprezar: a conceção de Deus para a Maçonaria continua a basear-se numa visão deísta de um Deus natural, percetível pela razão e sem intervenção na história humana, o «Supremo Arquiteto»; enquanto que, para a Igreja, Deus é um Ser transcendente, que se revela na história, de modo pleno na encarnação do Seu Filho Jesus Cristo. Sabendo ainda que desta dupla visão emergem antropologias distintas: com uma visão própria do homem e do seu destino final; bem como com consequências práticas na sua vivência social. Importa hoje é que a atitude de crispação e de luta do passado dê lugar ao respeito por cada uma das realidades. Se a Igreja já não lança anátemas sobre a Maçonaria, que esta não se oponha também à livre ação da Igreja em toda a sua legitima ação pastoral.

Para todas as realidades humanas vale sempre aquele princípio, bem afirmado pelo Papa João Paulo II: de que «o homem é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer na realização da sua missão». Caminho que se renova, na vivência deste ano jubilar da misericórdia, no amor, acolhimento e ternura para com todos.

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Em relação à realidade concelhia, o senhor padre Carlos Godinho é pároco no Luso e na Pampilhosa. Defende a agregação de paróquias ou o modelo em que vários padres tratam de todo um território?

Sim, encontrando-me há já dezasseis anos no concelho da Mealhada, sou atualmente pároco de Luso e da Pampilhosa. Mas também já fui pároco de Casal Comba e da Mealhada, embora nesta última apenas interinamente, durante cerca de sete meses. Inicialmente fui inserido no, então, Arciprestado da Mealhada. Presentemente, após a reforma dos Arciprestados, com o alargamento da sua territorialidade e das equipas de trabalho pastoral, a Mealhada foi inserida no Arciprestado de Coimbra Norte, estando agora a trabalhar na sua organização como Unidade Pastoral; estrutura que integra atualmente cinco das paróquias do concelho e no futuro integrará as sete. Importa referir que esta reestruturação é comum a toda a Diocese e deriva de fatores diversos que a fundamentam: nova realidade sociodemográfica, com alterações ao nível do número de habitantes e da sua mobilidade para os grandes centros; necessidade de congregar recursos humanos e materiais para corresponder, de forma mais ágil, à missão da Igreja; bem como atender à crescente diminuição do número de padres, que já se faz sentir e que se sentirá muito mais a médio prazo. Era urgente encontrar uma nova estruturação do trabalho eclesial na Diocese. Depois de uma longa reflexão, chegou a hora de implementar estas Unidades Pastorais. Este é, aliás, um dos objetivos do Programa Pastoral da Diocese para este ano de 2015 2016.

Pessoalmente, sempre defendi este modelo das Unidades Pastorais. Isto porque me parece ser o que melhor corresponde às necessidades do momento presente. Atendendo aos recursos existentes, nomeadamente ao número de padres, mais do que multiplicar estruturas, programas e recursos paroquiais, há que racionalizá-los, pondo-os ao serviço de todos. A Unidade Pastoral visa responder a esta necessidade: com um Conselho Pastoral comum e com equipas de dinamização pastoral setoriais, igualmente comuns, permite uma maior comunhão pastoral, com a partilha de serviços e ministérios. As paróquias não são agregadas, mantendo a sua identidade própria, mas passam a partilhar um mesmo programa e dinamismo pastoral. As Unidades Pastorais surgem não como mega paróquias, mas sim como uma estrutura pastoral intermédia que, reunindo representantes de todas as Comunidades Paroquiais, serve a todas igualmente, sob o cuidado pastoral de um ou dois sacerdotes.

Devo dizer que a Unidade Pastoral da Mealhada, em que conjuntamente com o Senhor Padre José Gonçalves e uma boa equipa de leigos das diversas paróquias, está no bom caminho. Necessitando agora de novos dinamismos, desde logo a começar pela elaboração de um programa pastoral conjunto, num próximo ano, e a sua implementação prática em todas as comunidades. Este é um novo modelo de trabalho, necessário para este tempo, que espero venha a dar muitos frutos.

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De uma maneira geral, é isso que a Igreja vai fazer perante a diminuição do número de padres para fazer face à manutenção da população?

Para além do recurso às Unidades Pastorais, há dois aspetos que devemos considerar ainda: A necessidade de dinamizarmos a pastoral vocacional nas comunidades cristãs e a necessária adaptação às novas realidades. A valorização e incremento da pastoral vocacional, convidando jovens a abraçar o ideal do sacerdócio, estão quase apagados nas nossas paróquias. Ora, é necessário, através de uma vida cristã mais decidida e autêntica, inverter esta realidade, fazendo da pastoral vocacional uma prioridade, transversal a toda a ação da Igreja. A bem das próprias comunidades, pois as vocações sacerdotais nascem nas comunidades para a elas serem enviadas.

Um segundo aspeto prende-se com o serviço dos presbíteros: não se pode esperar que um ou dois padres façam exatamente as mesmas coisas que anteriormente eram realizadas por um número mais alargado de padres. O concelho da Mealhada tem sentido essa diminuição. Somos hoje apenas dois, quando no passado recente tivemos uma equipa de quatro padres. Isto vai exigir uma redistribuição de serviços, reservando para o presbítero o padre o que é específico do seu ministério e confiando muito outros serviços aos leigos, como previsto pela Igreja. Esta será também uma exigência de corresponsabilidade efetiva. Neste sentido, necessitamos de redescobrir e implementar entre nós uma nova conceção ministerial, compreendendo que na Igreja existem vários ministérios ordenados e laicais que a atual ação pastoral reclama. Esta mudança de mentalidades tem de ser vivida por todos os cristãos mais assíduos à vida da comunidade e os menos assíduos.

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Que balanço faz do seu mandato enquanto presidente do secretariado nacional da Pastoral do Turismo?

A convite da Conferência Episcopal Portuguesa, assumi, em 2012, a direção da Obra Nacional da Pastoral do Turismo, organismo dependente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana. Como os mandatos são trienais, entrámos já no segundo mandato, com nova nomeação em abril deste ano. Devo dizer que este é um trabalho de âmbito mais alargado, à escala nacional, que se tem manifestado de uma extrema riqueza. Primeiro, porque me dá a possibilidade de ter uma nova imagem da Igreja em Portugal; depois, porque é um serviço que nasceu de raiz, por vontade dos nossos Bispos, correspondendo à necessidade de a Igreja responder a um fenómeno incontornável da nossa vivência comunitária, como é o fenómeno crescente do Turismo.

Ao contrário do que muitas pessoas vão percecionando, a Pastoral do Turismo não responde apenas às necessidades que derivam do Turismo Religioso. É, sim, um serviço eclesial prestado à pessoa do turista em todos os âmbitos do Turismo, onde somos chamados igualmente a viver a missão fundamental da Igreja a evangelização. Isso está bem explícito na missão que definimos para a Pastoral do Turismo em Portugal e nos seus objetivos. O primeiro triénio foi francamente positivo, com a organização da Obra e sua apresentação; os contactos com as dioceses; os contactos com as entidades públicas, mormente o Turismo de Portugal; as participações nas feiras de Turismo, como a BTL (Bolsa de Turismo de Lisboa); e as nossas Jornadas Nacionais de Pastoral do Turismo, que tiveram já duas edições.

Em julho passado iniciámos o segundo mandato, em sessão realizada no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, com a apresentação que fiz das oito prioridades para este triénio e a assinatura de um protocolo com o Turismo de Portugal, no âmbito do Programa Turismo 2020, que visa dar formação a guias e intérpretes que possam garantir a abertura das nossas igrejas e conduzir as visitas dos turistas.

Este trabalho, muito positivo, resulta também de um grande empenhamento de toda a equipa nacional, a que presido, sendo um serviço muito grato para mim.

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Considera que há turismo religioso ou acompanhamento espiritual quando se está em lazer?

Certamente que sim! Hoje a procura turística é muito diversificada e muitos turistas procuram usufruir das múltiplas ofertas dos espaços que visitam: os espaços de lazer, o património, a gastronomia, etc. Se o turismo religioso compreende uma especificidade própria, certo é que muitos turistas aproveitam o seu tempo de descanso para visitar o património e alguns santuários. Quanto ao acompanhamento, esse é um dos nossos maiores desafios: viver o acolhimento de quem nos visita e permitir-lhes a celebração da sua fé. Sempre que possível na sua própria língua, para quem vem do estrangeiro.

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Por último, que mensagem de Natal quer deixar aos leitores do Jornal da Mealhada?

Quero desejar a todos, antes de mais, um Santo Natal, cheio das bênçãos do Deus Menino, que se fez homem no meio de nós. Depois, desejar que cada um encontre no rosto de Jesus humanado o autêntico rosto misericordioso de Deus Pai, que Ele revela. É que, como refere o Papa Francisco, «Jesus é o rosto da misericórdia do Pai». Que nEle cada um encontre o amor, a ternura, a esperança, a alegria e a vida que procura. Por fim, identificando-se Ele com cada um de nós, que O possamos contemplar na pessoa dos nossos irmãos mais pobres ou em maiores dificuldades, trabalhando por uma sociedade mais justa, equitativa e fraterna. Que a ternura do Deus Menino, que nasce entre nós, nos leve à ternura para com todos, a quem reconhecemos como irmãos.

Autor: Jornal da Mealhada

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