Terça-Feira, 03 de Abril de 2012

Etimologia e outras histórias

Etimologia e outras histórias

Região

Etimologia e outras histórias

Desde a base da capela circular de Santo Antão, isolada no alto dum penhasco, rompe da encosta um aglomerado rochoso […]

Desde a base da capela circular de Santo Antão, isolada no alto dum penhasco, rompe da encosta um aglomerado rochoso que para lá da citada capela se prolonga a oriente até ao terreiro do Calvário e do Sepulcro. Foi neste segundo ponto que resolveram os construtores da Via Sacra figurar o termo da chamada Paixão de Cristo, claramente os atos finais da cerimónia comemorativa representando as últimas estações, e as ermidas do Calvário e do Sepulcro que acrescentam à simplicidade dos Passos, a penitência dos monges.

Sai da rudeza deste chão, alçado sobre a penedia, uma vista livre e abrangente de grande beleza e solenidade. A seus pés, foi nos finais do séc. XIX e principio do XX, destruída grande parte do velho mosteiro de Santa Cruz do Bussaco, pertencente à Ordem dos Carmelitas Descalços, e no seu lugar construído um palácio e pavilhão de caça para utilização do rei D. Carlos, estruturas que a realeza não chegou efetivamente a utilizar e que, por falta de outros objetivos e dinheiro se transformaram num hotel.

A beleza humilde dos pobres anacoretas, retirados de Sintra pela presença da corte aquando da escolha do local para a instalação do deserto, foi agora substituída, cerca de trezentos e cinquenta anos depois, pela presumida vinda do rei com o esplendor e o rebuliço duma corte que incluiria sem dúvida nenhuma o aparato duma clientela inócua, viciada e falida, todos os que cronicamente sobreviviam das gamelas reais e dos impostos lançados sobre o povo e que impediram os carmelitas de estabelecer o deserto em Sintra quando da sua fundação. Mais ou menos como hoje, a levar em conta osxa0 excelentes retratos de Eça e Queiroz e outros testemunhos da época como as figuras incontornáveis de Rafael Bordalo Pinheiro, o reino balançava na mesma vergonha e banca rota e em lutas intestinais pela mudança de regime.

O desenho do cenógrafo italiano Manini, ao invés da voluntária pobreza e rude talha dos eremitas apresenta-se pois conforme a ostentação de reis e cortesãos, um conjunto arquitetónico manuelino e revivalista que iria ser construído com o apoio da escola Coimbrã, o calcário de Ançã, o picão de Anacleto Garcia. A magnificência do traço, dos rendilhados, da azulejaria, das salas, do pavilhão de caça, conferiu aos trabalhos um cunho de beleza e qualidade que veio depois a servir para a instalação de um dos primeiros hotéis de luxo deste país que foi pioneiro na nova industria nascente, a industria do turismo e hotelaria.

Para chegar a este ponto intermédio, dele não se pretende passar, foi preciso a perspicácia, a humildade, o misticismo e a paixão dos frades que aqui habitaram desde a primeira metade do séc. XVII, dotando o espaço selvagem então existente, do convento e adereços religiosos a par do património botânico pacientemente plantado e garantido com amor e devoção. Desse trabalho com que se incumbiram com voluntário denodo, trazendo do novo mundo inúmeras espécies, está por fazer a história que lhes tocou por missão. Juntemos a este património botânico e religioso o pedaçoxa0 da invasão napoleónica que se escreveu nas encostas da serra e teremos à mão o posto perfeito para um polo importante de desenvolvimento turístico de que este centro de Portugal precisa, coisa que não tem acontecido por falta de mãos e de cabeças xa0e também por excesso de oportunismo, pensamento aldeão e sucessivas visões tão atrasadas como anacrónicas.

Esta é a história breve dum Buçaco concreto, outra xa0história, a etimológica, não é clara ou não existe, resume-se a lendas e invenções sem credibilidade, não só porque não há testemunhos dos relatos como o enredo de que são feitos é pobre e frágil. Mesmo assim fala-se do berço das palavras e da sua localização e por tal motivo vou repetir com os costumados ingredientes, histórias que estão contadas e que eu próprio recontei. Vamos pois relembrar.

Entre a capela de S. Antão por onde comecei este texto e o terreiro do Calvário, ziguezagueia serra acima uma estreita e deslumbrante vereda, regra geral tão mal tratada que aqui e ali pode desaparecer no vegetal, e que pouco antes de atingir o já citado terreiro no Sepulcro, margina grossas e soltas penedias sobrepostas que fazem nos seus remates uma espécie de abrigo ou gruta a que a empírica ciência popular chamou Cova do Negro.

Diz a lenda, que é disso que se trata, que em tempos não relembrados, ali se instalou um perigoso bandido de cor negra fazendo daquele covil um ponto de permanência e de partida para os atos de ladroagem que praticava sobre gados e haveres nas aldeias da vizinhança e de tal sorte era insistente e cruel nas suas arremetidas, quexa0 chamavam asxa0 gentesxa0 à gruta dondexa0 partia Cova ou Toca do Boçal, sabido que era então o nome de Boçal aplicado aos negros de cor madura, pretos retintos para os distinguir de mulatos e crioulos. Esta palavra boçalxa0 terá o uso e o tempo burilado na gramática, dando Buzzaco, Bussaco e recentemente Buçaco.

A contrapor a esta lenda brutal temos uma outra, a do velho e bom ancião, um venerável habitante das redondezas que, junta com a anteriorxa0 faz uma clara dicotomia entre o bem e entre o mal. Aqui, o bom homem habita numa aldeia por ali perto e por questões de feitio, misticismo ouxa0 conveniência, muitas vezes procura a solidão do monte para rezar e fazer penitência, premonizando talvez a vinda dos eremitas. Perder-se-á dias, semanas, meses, na solitária imensidão da serraxa0 e regressado ao povoado, perguntando-lhe vizinhos e conterrâneos sobre o que encontrou por lá, responde lacónico:

– Daquele monte saco bus!

A mesma trama gramatical recompõe silabas, palavras e surge a mesma proposta, o Buzzaco, o Bussaco, o Buçaco dos nossos dias.

Por fim, uma versão mais prática e atrevida, relaciona o Buçaco com Sublaco, um deserto que existiu no Lácio, Itália, no qual São Bento, o fundador da Ordem dos Beneditinos, passou três anos em obediente e humilde penitência. Destexa0 factoxa0 escreve axa0 cortesã e poeta Bernarda Ferreira de Lacerda no seuxa0 livro Soledades do Bussaco:

Eu aquellos siglos de oro

Y venturosas idades

Qual el Lacio Sublaco

Solia el monte llamarse.

A titulo de finalização, direi que a primeira referência escrita ao nome Buzaco, aparece em latim bárbaro no ano de 919 , numa doação do lugar de Gondelim ao mosteiro de Lorvão. Diz assim: com suas valles que discurrent de monte buzaco. (1)

Em 1006, Froila Gundizalves doou ao mosteiro Vacariça o seu casal de Uillanoua subúrbio colimbrie inxta monte buzzaco(1)

Em 1016, no Livro Preto da Sé de Coimbra , se refere: in loco predicto Uaccaricia subtus mons buzaco território colimbrie.

Sobre a primeiraxa0 lenda do negro boçal, existe um beloxa0 texto de Alberto Pimenta, contando em versos a história do ladrão.

xa0

(1) Portugalia Monumenta História,V1,pág.14.

xa0

FERRAZ DA SILVA

Crónicas Locais #117

Coimbra, março,2012xa0

(texto segundo o novo acordo ortográfico)

Autor: Jornal da Mealhada

Find A Doctor

Give us a call or fill in the form below and we will contact you. We endeavor to answer all inquiries within 24 hours on business days.