Europa: Alerta Vermelho!
Às horas a que escrevo tenho um país inteiro à minha volta com o fervor patriótico ferido por mais uma […]
Às horas a que escrevo tenho um país inteiro à minha volta com o fervor patriótico ferido por mais uma desilusão futebolística no Euro. Depois do gelo islandês apareceu o briol austríaco, e é ver um povo inteiro a carpir mágoas nas redes sociais e a queixar-se da nossa má sorte. Não os censuro, pois também eu me junto à lamentação colectiva. A (mais uma vez) enorme expectativa dos Portugueses relativamente a este campeonato europeu não está a ter o retorno desejado, e depois já se sabe como é, ninguém consegue transformar bestiais em bestas à velocidade deste meio. No entanto, há responsabilidades evidentes nos fracos resultados alcançados até agora, não se compreende como é que se fazem quase 30 remates por jogo, batendo recordes estatísticos de tentativas, e depois não se marca praticamente golo nenhum. A essência da bola é ir para dentro da baliza, por muito bem que se jogue é impossível vencer sem concretizar oportunidades. Futebol é golo. Falta-nos o que sempre nos faltou: um ponta de lança de classe mundial. O Ronaldo sozinho lá na frente não chega, precisa de uma muleta posicional que neste caso não está lá. Mas pronto xute-se a desilusão para a frente, que ainda nada está perdido! Sabemos usar a calculadora como ninguém e agora temos os húngaros como próximos adversários, esperemos que a sorte esteja do nosso lado desta vez e, aqui entre nós que ninguém nos ouve, ó Fernando Santos, és capaz de pôr o Renato Sanches em campo que dá logo outra alegria ao jogo?
Há muitas pessoas que desdenham o espectáculo do futebol e dizem que é por estas e por outras que o país está como está, por ser dada a prioridade ao acessório deixando o essencial para trás, como a dívida e os défices. Há um fundo de verdade nesta acusação, mas o que seríamos nós sem a paixão? A vida também é feita de euforia e de sensações, caso contrário correríamos sérios riscos de nos tornarmos máquinas frias e calculistas, seres desprovidos de emoções em nome de uma racionalidade quase absoluta e profundamente despersonalizante. Ainda bem que assim não é. Queixava-se Pessoa, no mais desassossegado de todos os seus livros, que pensar é destruir, e eu sinto-me na obrigação de concordar com ele em grande parte. Em grande parte, mas não por completo, porque de vez em quando também é importante pensar um bocadito que seja nisto ou naquilo, por mais que isso nos custe, mas a verdade é que a alegria mais profunda e extasiante está com os que sentem! Serve esta reflexão para nos transportar para uma outra realidade bem actual, que também está sob os holofotes dos media nos dias que correm. Portugal joga a 22 de Junho contra a Hungria e o Reino Unido decide a continuidade na União Europeia a 23, logo precisamente no dia seguinte. É caso para saber quem vencerá em ambas as decisões, se o coração ou a razão.
Em Londres, soube-se há dias que o amor cego e louco que um homem nutre pela sua nação o levou a alvejar e a esfaquear uma reputada deputada pró-In, com a mais fria das barbaridades. Britain first! Death to traitors!, vociferou no momento do ataque. Confesso com espanto que não sei como é que nos dias que correm ainda possam haver pessoas tão exaltadas do ponto de vista nacionalista. O orgulho que as move turva-lhes claramente o discernimento e leva-as a cometer actos loucos como este, que fariam corar de vergonha qualquer primata. Até poderá ter alguma coisa de positivo, tão hediondo crime. Talvez abra um pouco mais os olhos a uma série de hooligans patrióticos que vêm o problema numa Europa que, com todas as suas imperfeições e mais algumas, ainda vai sendo o elo mínimo de ligação entre nações potencialmente perigosas caso se concretize o desastre do ressurgimento dos autoritarismos e dos nacionalismos totalitários. Se isso acontecer, perderemos todos, e temo que um eventual Brexit se configurasse como uma bola de neve que rapidamente teria sérias repercussões à escala continental. Repercussões sérias e demasiado perigosas. A desagregação europeia é mesmo para temer, sem esquecer a crise dos fluxos migratórios de África que, ao que parece e muito lamentavelmente, está apenas a começar e no fundo também mexe com isto tudo, e de que maneira. Dossiers de importância crucial e que estão aí nos escaparates dos meios de comunicação, já a seguir ao campeonato europeu e aos jogos olímpicos, que isto funciona por ordem de prioridades. Pois é. Por vezes a dificuldade em brincar com assuntos sérios é tremenda, mas louve-se a capacidade que (ainda) temos de nos emocionar, e de sentir com o coração o que muitos só conseguem imaginar como seria, no pensamento da razão, aquilo que só vem da cabeça mesmo. A Europa está em alerta vermelho, mas o projecto europeu não pode ser posto em causa. Mais, deve ser reforçado em várias dimensões que nos proporcione uma União e uma Integração de facto.
Da minha parte, destruam-se fronteiras e integrem-se os povos! Abaixo com os Out e com todos os nacionalistas primários! Vivam os Estados Unidos da Europa! Viva o Futebol. e viva o Ronaldo! E o Renato Sanches! Vivam todos aqueles e tudo aquilo que nos faz felizes Viva a emoção de quem sente a Europa, e viva a razão de quem acha que o seu reforço é o melhor caminho! Viva a União! Viva a Integração! Viva a Europa!
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Opinião de Mauro José Tomaz
Autor: Jornal da Mealhada
