Faleceu o bispo emérito de Coimbra, D.Albino Cleto
Faleceu na noite da passada sexta-feira, 15 de junho, vítima de doença súbita, Dom Albino Mamede Cleto, Bispo emérito de […]
Faleceu na noite da passada sexta-feira, 15 de junho, vítima de doença súbita, Dom Albino Mamede Cleto, Bispo emérito de Coimbra. O prelado tinha 77 anos e faleceu nos Hospitais da Universidade de Coimbra, onde tinha entrado pelo próprio pé, algumas horas antes. Dom Albino foi sepultado hoje, segunda-feira, 18 de junho, em Manteigas, de onde era natural.
Dom Virgilio Antunes, actual Bispo de Coimbra e o sucessor de Dom Albino Cleto, na missa a que presidiu na tarde de domingo, descreveu o seu antecessor como um “arauto do Reino de Deus”, “A sua simplicidade, humildade, e o seu amor foi um exemplo para todos nós”, afirmou perante uma centena de fiéis que se quiseram despedir do “Bispo do Povo”, como tem sido chamado nestes dias de luto.
O corpo esteve em Câmara ardente na Sé Nova, em Coimbra, durante todo o dia de domingo e até às 13 horas de segunda-feira, altura em que o corpo foi transportado para a Igreja de São Pedro, Manteigas. Durante a Câmara Ardente foram celebradas duas missas com o corpo presente, presididas por Dom Virgilio Antunes. Às 17 horas de segunda-feira, em Manteigas, realizar-se-á nova eucarístia, desta feita presidida por Dom Manuel Felício, Bispo da Guarda.
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BIOGRAFIA DE DOM ALBINO CLETO
Albino Mamede Cleto nasceu a 3 de março de 1935, na freguesia de São Pedro, em Manteigas, na diocese da Guarda. Frequentou o seminário do Patriarcado de Lisboa, diocese onde é ordenado presbítero a 15 de Agosto de 1959.
Frequentou a Universidade Clássica de Lisboa, onde obteve, na faculdade de Letras, a licenciatura em Românicas, e foi professor ocasional, na Universidade Católica de Lisboa, de Línguas e Literatura.
No exercício do seu ministério presbiteral, na diocese de Lisboa, fez parte da equipa formadora do Seminário de Almada como perfeito de estudos e Vice-Reitor; presidiu à comissão administrativa do Santuário de Cristo Rei; foi pároco da Paróquia da Estrela e membro da Comissão Diocese de Arte Sacra do Patriarcado.
A 6 de Dezembro de 1982 é nomeado bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, com o título de Elvira, pelo Papa João Paulo II, tendo sido ordenado a 22 de Janeiro de 1983, no Mosteiro dos Jerónimos. Assumiu, nessa altura, o lema episcopal: Há mais alegria em dar, do que em receber.
A Santa Sé nomeou-o Bispo Coadjutor de Coimbra, no dia 29 de Outubro de 1997, tendo tomado posse no dia 11 de Janeiro de 1998. Por resignação do bispo de Coimbra, Dom João Alves, assume o governo da diocese de Coimbra a 24 de Março de 2001. Torna-se, então, o 64.º Bispo de Coimbra.
Foi Secretário e Porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, desempenhando diversas tarefas como Presidente das Comissões Episcopais de Liturgia e Educação Cristã e de Coordenador das Comemorações dos Cinco Séculos e Encontro de Culturas. Foi também presidente da Comissão Episcopal dos Bens Culturais da Igreja.
A 28 de Abril de 2011, por nomeação de D. Virgílio Antunes para Coimbra, passou a ser administrador apostólico da diocese, tendo ficado bispo emérito a 10 de Julho de 2011.
Atualmente fazia parte da Comissão Episcopal para a Liturgia e a Espiritualidade.
Partiu para a casa do Pai a 15 de Junho de 2012, Solenidade do Coração de Jesus, nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Há já algum tempo que a saúde de Dom Albino se vinha a fragilizar. O seu coração de pastor e a sua grande generosidade, levava-o a não pensar em si, mas a dar-se sempre.
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HOMÍLIA DE DOM VIRGILIO ANTUNES NA MISSA EXEQUIAL
Caríssimos irmãos!
O Senhor Jesus quis chamar os doze apóstolos como seus amigos e imediatos colaboradores, junto ao lago da Galileia. Andaram com Ele, partilharam da sua vida, escutaram da sua boca a palavra da salvação e foram enviados em missão de anúncio do Reino de Deus.
Em Jesus conheceram a força do Deus amor, viram os gestos salvíficos e aprenderam uma revolucionária forma de estar no mundo, centrada na oferta de si mesmo em favor dos irmãos.
Aquela comunhão pessoal, fruto de uma adesão incondicional, ensinou-lhes que, quando se experimenta o amor de Deus, nada há que possa separar dele. E o amor tinha-se-lhes manifestado em Jesus Cristo. Nada os podia afastar dEle.
A História da Salvação continua no tempo, e o mesmo Senhor Jesus Cristo, não cessa de vir ao encontro da humanidade com os mesmos intuitos de amor e com as mesmas manifestações salvíficas. Toca a muitas portas, abre os horizontes da confiança e convida a entrar no banquete e na festa. Nesse monte do encontro continua a revelar as Escrituras, faz arder o coração quando reparte o Pão na Ceia, permite saborear desde já a beleza da vida e do amor, leva a experimentar antecipadamente as delícias das realidades definitivas que preparou para nós.
D. Albino Cleto teve a graça de encontrar este Senhor Jesus Cristo na paz da montanha, abriu-Lhe a sua morada, quando Ele bateu à porta, permitiu que Ele entrasse, deteve-se longo tempo na contemplação do seu rosto durante a ceia, quis ser Seu servo e Seu amigo. Conheceu, por isso, a grandeza do Seu amor, deixou-se cativar pelas Suas palavras de vida eterna, entrou no banquete, alegrou-se e exultou porque se sentiu salvo pelo Senhor e desejou ser instrumento da Sua salvação.
A vida cristã, como a vocação sacerdotal são sempre uma consequência deste encontro; o chamamento a fazer parte do grupo dos continuadores da missão dos apóstolos é uma graça que se não merece nem se pode agradecer na totalidade dos anos em que se permanece sobre a terra; terá continuidade no louvor do Céu.
D. Albino fez da totalidade da sua vida sobre a terra uma grande ação de graças por todos os dons que recebeu. Fê-lo com a oferta de si mesmo, no serviço da Igreja e da humanidade, disponível para se gastar até ao fim, na fidelidade à missão recebida. Fê-lo numa proximidade extrema a todo o Povo de Deus, nos variados trabalhos que desenvolveu. Este foi o seu sacrifício perfeito, não constituído por holocaustos nem oblações, mas pela entrega de si mesmo como verdadeira oblação ao Pai, em favor dos irmãos.
O texto do Evangelho segundo S. Lucas transporta-nos para essa bela realidade da esperança cristã, que não se funda nos acontecimentos nem nas possibilidades humanas, mas na fé em Jesus Cristo, que caminha continuamente connosco.
Quando tudo parece perdido em virtude das dificuldades, da doença ou da morte, há um Cristo que avança silencioso entre nós, que se manifesta precisamente na desdita da cruz. Olhando à nossa volta, vendo os outros e o mundo, nem sempre O reconhecemos sentado ao nosso lado ou a fazer-nos companhia no caminho.
Às vezes, o coração arde quando Ele fala e nos explica as Escrituras, outras vezes as circunstâncias da vida não permitem reconhecê-lO. Pedimos a pobreza de coração e a abertura dos olhos da alma, a fim de que o partir do pão seja o sinal para a fé e o lugar do encontro com o Ressuscitado, fonte de toda a esperança.
A nossa passagem por este mundo será uma fonte de bênção se conseguirmos ser com Cristo, esses companheiros que caminham lado a lado com todos; se com Cristo permanecemos firmes junto aos que precisam do sustento de uma esperança viva; se o partir do Pão for um sinal da partilha da vida; se a nossa palavra passageira for um reflexo da Palavra Eterna.
Esta é a missão de todo aquele que foi batizado em Cristo, morto e ressuscitado e é, de um modo particular a daqueles que foram ungidos em ordem ao ministério sagrado: sermos discípulos e companheiros da humanidade, em todos os caminhos repletos de esperança e quando ela vier a faltar. Esta é a nossa missão, caríssimos sacerdotes, religiosos e leigos, na fidelidade ao testemunho dos que nos precederam.
Recorrendo à metáfora geográfica tão comum na Sagrada Escritura, poderíamos descrever a vida do Senhor D. Albino como uma grande missão e uma apressada peregrinação. A voz de Deus fez-se ouvir nas montanhas: «Vai para a terra que Eu te indicar». «Eis-me aqui», foi a resposta pronta, apesar da tenra idade e da incerteza do futuro. A arder de zelo pela casa do Senhor, desce em direção à planície, confiado na força dAquele que o chama e o envia.
E ele vai às cidades e aldeias onde era preciso anunciar a Boa Nova do Reino de Deus. Ali, na terra densamente povoada a que foi enviado, na grande cidade, o tempo urge e não se pode desperdiçar; é a salvação da cidade e do mundo que está em causa; nada há que levar consigo e nada há a reservar para si: «recebestes de graça, dai de graça»; «há mais alegria em dar do que em receber», foi a palavra de ordem. Corre de um ao outro lado, numa ânsia incontida de anunciar a Boa Nova a todos sem exceção. A seara era grande e os trabalhadores eram poucos; nada o podia deter.
Com a sensação do dever cumprido, testemunha das maravilhas de graça que Deus realiza nos seus humildes servos, D. Albino pôde agora voltar ao monte, onde Deus preparou um banquete de alegria para todos os povos. De facto, «nem a morte nem a vida poderá separar-nos do amor de Deus que se manifestou em Cristo Jesus, nosso Senhor». Vimos de Deus e, se permanecemos nEle, somente o regresso a Ele dará repouso aos nossos corações inquietos.
Feliz na terra, mais feliz será no Céu diante da misericórdia de Deus que apaga todo o pecado: Entra na alegria do teu Senhor, porque estiveste próximo dos mais pequenos e deixaste uma rasto de bondade por onde passaste; entra na alegria do teu Senhor, porque nenhuma das dores humanas te foi indiferente; entra na alegria do teu Senhor, porque emprestaste o teu rosto amigo e bom a Cristo o Bom Pastor, que cuida das suas ovelhas.
Agradeçamos a Deus o sacerdócio do Senhor D. Albino pelo qual partilhou o Pão da Palavra, o Pão da Eucaristia e o pão da sua vida. Peçamos-lhe que interceda pela nossa Diocese, para que cresça na fé em Jesus Cristo, e receba a abundância das vocações sacerdotais, a fim de que as comunidades cristãs possam reconhecer o Senhor ao ouvir as Escrituras e ao partir o Pão. Ámen.
Coimbra, Sé Nova, 18 de Junho de 2012
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra
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Autor: Jornal da Mealhada
