Júlio Costa: “A escrita deste livro é um sonho que eu tinha para realizar, é uma homenagem aos meus pais”
Júlio Francisco Costa, 87 anos, nascido e criado em Felgueira Velha, concelho de Oliveira do Hospital.
Júlio Francisco Costa, 87 anos, nascido e criado em Felgueira Velha, concelho de Oliveira do Hospital, teve uma infância dura, marcada pelas vivencias da época, contudo considera que foi muito acarinhado pelos seus pais. A sua juventude ficou marcada pela Guerra Colonial em Angola, experiência que lhe trouxe sofrimento, mas também consciência das batalhas que travou e das conquistas que alcançou.
Vive na Mealhada desde 1967, ano em que casou. Aqui construiu vida e família: tem três filhos e seis netos, que adora profundamente. “Que sorte eu tive em ter uma família maravilhosa!”, sublinha com emoção.
Em entrevista ao jornal, contou o percurso de toda uma vida — da infância à guerra, da atividade política à escrita — e revelou como tudo isso deu origem ao seu último livro, “Histórias de uma Vida”, uma obra que descreve como “muito íntima”. Foi lançado no dia 1 de dezembro, no salão nobre dos Bombeiros Voluntários da Mealhada. “Este foi escrito no intervalo do primeiro (“Versejar no Rasto das Pandemias”), que é em versos, com cerca de 300 quintilhas, enquanto via o mundo mudar pela televisão.
“Não gosto de estar parado” começa por dizer Júlio Costa, e, assim, acabada a Pandemia, Júlio retoma a escrita do livro “História de uma Vida”, e é com brilho no olhar que sublinha “a escrita deste livro é um sonho que eu queria realizar, pois é uma homenagem aos meus pais – Maria do Céu e João – que eram analfabetos e fizeram de tudo para que eu e os meus dois irmãos estudássemos!”
Fez a instrução primária nas Caldas da Felgueira, de outro concelho e distrito, porque a sua aldeia não tinha escola. Todos os dias caminhava cerca de seis quilómetros — ida e volta — num percurso difícil, marcado pelo frio e pela falta de agasalhos. “As famílias eram numerosas e havia quem passasse fome. E, claro, faltavam professores”, recorda.
A determinação da mãe foi decisiva: “Era uma mulher fabulosa. Ninguém pensava em estudos para os filhos, mas ela organizou tudo para que nós estudássemos”. Depois da quarta classe, a família mudou-se para uma quinta em Coimbra, permitindo que os três irmãos prosseguissem os estudos.
Júlio entrou no Liceu D. João III (hoje Liceu José Falcão), sendo o único dos seus colegas a seguir para o ensino liceal. Concluiu o curso de Regente Agrícola em 1961, após estágio na Mealhada, na Circunscrição Florestal de Coimbra.
Nesta altura da sua vida em que pensava que iria exercer a sua atividade para o qual estudou, é recrutado para exercer serviço militar em junho de 1961. “Fiz 21 meses de serviço militar aqui em Portugal, dei instrução em Mafra, Tavira, Caldas da Rainha, Leiria, Chaves, Viana do Castelo e depois segui para Angola, em 1963, onde estive 27 meses. No total prestei 48 meses e 15 dias de serviço militar ”, recorda Júlio Costa.
Considera este o período mais negro da sua vida: “Foi terrível. Voltaram a abrir-se feridas que o tempo tinha cicatrizado.” Durante a escrita do livro, tomou consciência de que lutou “contra alguém que lutava pela própria liberdade”. “Aquele território era deles. Sou um amante da liberdade e revoltava-me.”
Quase abandonou a escrita, mas retomou-a com o apoio do diário que manteve durante a guerra.
Regressou a Portugal em junho de 1965, sendo recebido pelos pais em Lisboa, momento de muita felicidade.
Após o regresso, a vida profissional passou pelo Ministério da Agricultura, seguiu-se a Comissão Nacional do Ambiente, e ainda no Serviço Nacional de Parques, até aos 55 anos, quando se reformou.
Paralelamente, depois de vir de Angola, retomou a atividade desportiva de que ainda hoje é fã, o rugby, jogou no Académica de Coimbra.
Sendo um homem que não “gosta de estar parado”, depois de reformado esteve ligado, durante 17 anos à Cooperativa Agrícola da Mealhada.
Restaurou, juntamente com os seus irmãos, a casa onde cresceu, que descreve como o seu “retiro espiritual”. “Cada vez que lá vou, renasço”, afirma, sublinhando que é património de toda a família.
A política foi parte da sua vida, afirma-se um homem de valores e garante que o 25 de Abril de 1974 foi o dia mais feliz da sua vida: “Saímos da escuridão e entrámos na luz. Senti-me aliviado. Os meus filhos já não teriam de ir para a guerra.”
Após a revolução, liderou o Partido Socialista na Mealhada e foi vice-presidente da Câmara Municipal, durante dez meses, na presidência de Maria Odete Isabel — a primeira mulher a liderar o município. Abandonou o cargo ao assumir funções na Comissão Nacional do Ambiente, em Lisboa.
Mais tarde, colaborou com o Partido Comunista, sendo deputado na Assembleia Municipal durante cerca de três anos.
O autor destaca que o conteúdo do livro é especialmente importante para as gerações futuras, já que relata as vivências de um homem na guerra.
As vendas revertem a favor dos Bombeiros Voluntários da Mealhada.
Fotos: Miguel Malaguerra
Autor: Jornal da Mealhada



