Lá em casa mando EU!
É cada vez maior o número de pais que recorrem a consultas de pedopsiquiatria, preocupados com o comportamento dos filhos. […]
É cada vez maior o número de pais que recorrem a consultas de pedopsiquiatria, preocupados com o comportamento dos filhos. Estamos a falar de crianças sem limites, desobedientes, desafiadoras, pequenos reizinhos lá de casa que impõem a sua lei, que dominam os pais para fazerem a sua vontade, que não toleram a frustração, o não, que mantêm uma birra intensa até as suas expectativas serem cumpridas. Estas crianças acabam por ser a autoridade lá de casa!
Se bem que a genética pode influenciar este comportamento, as práticas educativas parentais são de primordial importância à modelação destes comportamentos.
Os pais, incapazes de impor limites aos filhos, são bem mais numerosos do que há alguns anos atrás. Vários fatores poderão contribuir para este facto, nomeadamente uma sociedade permissiva que educa as crianças nos seus direitos e não nos seus deveres – Padrões Educativos Permissivos – e onde reina o não pôr limites. Assistimos cada vez mais a uma falta de autoridade dos adultos (pais, professores) que são quase impedidos de exercer a sua autoridade. Assistimos à passagem de 8 para 80. De uma educação altamente punitiva para uma ausência de limites onde são as crianças que impõem a sua lei. Também o facto de os pais passarem cada vez menos tempo com os seus filhos impede-os de os contrariar, para evitar conflitos.
A criança, para um adequado desenvolvimento psicoafectivo, necessita crescer num ambiente estruturado com regras e limites, num modo previsível e ordenado, sendo o papel das figuras parentais primordial neste processo. Cabe às figuras parentais (funções parentais) cuidar (assegurar os cuidados básicos) e mimar (amor e carinho) os seus filhos, mas também estabelecer regras e limites (controlo externo) com firmeza. Devemos educar com afeto mas, marcando regras, exercendo controlo e, quando necessário, dizendo NÃO. Só desta forma os ajudamos a crescer em confiança, a se sentirem protegidos, a tolerar as frustrações, a aprender a esperar e a controlar os seus impulsos, condições necessárias para conseguirem estabelecer relações interpessoais gratificantes.
Embora possa parecer paradoxal, toda a criança para se sentir segura e amada necessita que os pais a dirijam, caso contrário são invadidas por sentimentos de abandono.
O papel das crianças é testar os limites para verem até onde podem ir e testarem a capacidade dos pais para o fazerem. O papel dos pais é estabelecer limites, os quais devem ser claros, coerentes, firmes, constantes e consequentes. A criança necessita de saber até onde pode ir para se sentir mais confiante e segura. Se os pais permitirem que a criança ultrapasse esses limites a criança irá sentir-se insegura. É espectável que a criança desencadeie uma birra quando deseja alguma coisa e não lhe é concedida; a frustração é uma emoção normal e saudável, é importante que aprenda a aceitar a frustração. A manutenção destes comportamentos depende, em grande parte, da resposta que obtém dos pais. Perante uma birra, os pais devem responder com determinação, e nunca a criança deve conseguir o que se propõe depois da birra. Ignorar a birra pode ser uma opção. Este comportamento deverá ser igual em todos os contextos.
À medida que a criança vai crescendo e se torna adolescente, estes limites podem ser negociáveis e mais flexíveis
Torna-se muito importante que os pais não se desautorizem mutuamente, na presença dos filhos, quando estão a impor as suas regras e limites; claro que podem surgir opiniões diferentes, mas estas devem ser discutidas em privado, nunca na presença dos filhos, e chegarem a um consenso.
Também na escola observamos um crescente aumento de comportamentos de oposição desafio por parte dos alunos. O principal facto que contribui para este fenómeno é a evidência de os professores estarem cada vez mais impedidos de exercer a sua autoridade também na escola mandam eles! Para além disso assistimos cada vez mais a uma desautorização dos professores pelos próprios pais, pais que menosprezam constantemente a autoridade dos professores.
A necessidade de regras e limites também se estende ao contexto escola, local onde as nossas crianças passam a maior parte do tempo, e onde também cada vez mais são eles que mandam! Neste contexto cabe aos professores esta difícil tarefa da imposição das regras e limites. Também neste contexto torna-se de extrema importância a não desautorização entre pais e professores.
Graça Milheiro
Pedopsiquiatra no HMM
Autor: Jornal da Mealhada
