Terça-Feira, 06 de Março de 2012

Memória(s) de Augusto Oliveira

Memória(s) de Augusto Oliveira

Região

Memória(s) de Augusto Oliveira

Assim que terminou a quarta classe, foi trabalhar para o restaurante da estação da Pampilhosa. O menino ganhava cinquenta escudos […]

Assim que terminou a quarta classe, foi trabalhar para o restaurante da estação da Pampilhosa. O menino ganhava cinquenta escudos por mês, cama e mesa. Foi mais uma vítima da exploração miserável que se vivia, nessa altura, por volta de 1946/47. Era obrigado a trabalhar 21 horas por dia; sim, 21 horas por dia. Entrava ao serviço às 8 horas da manhã e só saía às 5 da manhã do dia seguinte. Descansava apenas três horas. O trabalho era violento. Tinha de lavar a louça das refeições servidas, acarretar lenha para o fogão que era também o seu aquecimento nas noites de inverno. É certo que descansava algumas horas no intervalo dos comboios. Nessas alturas, era acordado do seu leve sono a soco e a pontapé pelo dono do restaurante que chegava a tirar-lhe o banco onde se sentava para dormir encostado ao fogão. Caía no chão: Vá lavar os copos, seu sacana! Só serve para dormir!. Esfregando os olhos húmidos de lágrimas, o menino lá ia, ensonado, lavar a louça amontoada num tabuleiro.

Quando tinha 15 anos, já consciente da situação em que era obrigado a trabalhar sem descanso semanal, sem férias lembrou-se de a denunciar num jornal da época, o Diário Ilustrado, muito lido e mais tarde extinto pelo SNI de Salazar. No dia seguinte, dois elementos do sindicato corporativo, de Aveiro, dirigiram-se ao patrão, ignorando os trabalhadores, mas forçando-o a regularizar a situação que era por demais desumana. A partir dessa data, os trabalhadores passaram a gozar um dia de folga por semana e seis dias de férias por ano. No coração e na mente daquele jovem existia uma alegria imensa de vitória, apesar do aumento da repressão e da vingança do patrão.

Meses depois, um novo texto enviado ao jornal com o título: Gorjeta, remuneração humilhante para quem dá e para quem recebe. O patrão valia-se das gorjetas para pagar menos salário aos trabalhadores. Naquele caso, existia uma pequena caixa em madeira com uma ranhura na tampa que era aberta no final do mês. O conteúdo era distribuído, servindo de pretexto, ao patrão, para reduzir os vencimentos.

O ideal revolucionário aperfeiçoou-se Filiou-se no PCP em Maio de 1958, por intermédio de um camarada ferroviário. Passou a ser o elo de ligação entre ferroviários, recebendo e distribuindo a imprensa clandestina entre eles (Avante!, Militante, entre outros jornais).

Após ter feito o serviço militar, já homem, dirigiu-se àquele patrão: amanhã já não venho trabalhar!. Conseguiu emprego na Soprem, na Pampilhosa, continuando a sua actividade partidária, então com maiores responsabilidades. Fazia a distribuição do Avante! Por Mortágua, algumas vezes por Anadia, fazendo os trajectos a pé para iludir a perseguição da PIDE.

Fez parte da assembleia de voto das eleições de 26 de Outubro de 1969, em representação da Oposição Democrática, na companhia do camarada e amigo José do Vale Vieira. (Que grande experiência, esta!… Alguns democratas da época ainda estão em actividade política, mas noutros quadrante políticos, já se vê.) Participou nos 2.º e 3.º Congressos da Oposição Democrática em Aveiro.

Em Dezembro de 1973 foi despedido da Soprem, acusado de actividades subversivas. Durante a noite tinha sido feita uma distribuição de panfletos da autoria da LUAR, facto de que foi acusado.

No dia 1 de Abril de 1974 empregou-se na CIMPOR, em Souselas, seguindo um trajecto profissional de relevo, de analista químico. Foi eleito pelos trabalhadores como dirigente do Sindicato dos Cerâmicos e Cimentos. Foi também eleito para a Comissão de Trabalhadores, desde 1975 até 1997, ano da saída da CIMPOR, por sua decisão.

A actividade política, essa, continua como militante comunista. Faz parte da estrutura local do PCP.

Dizia Ho Chi Minh, revolucionário vietnamita:

Antes a morte que a vida como servo.

Quando as bandeiras se desfraldam

que desgraça estar numa enxovia

e não poder lançar-me nas batalhas!

xa0

Augusto Oliveira,

falecido em 02 de Março de 2012

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NOTA DO DIRETOR

Este foi o último texto de Augusto Oliveira, que durante muitos anos foi colaborador de opinião para o Jornal da Mealhada.

Trata-se de uma pequena nota biográfica, escrita pela sua mão – apesar de estar relatada na terceira pessoa, como cabe a um comunista humilde e devoto -, escrita a pedido de um camarada seu, João Louceiro, a quem a entregou há cerca de dois anos.

A nós próprios nos narrou, certo dia, como ingressou no Partido Comunista Português, com o contacto de alguém que trazia a outra metade do postal ilustrado que lhe havia sido entregue umas semanas antes como forma de contrasenha. Contou-nos, também, que não havia sido ele a espalhar os papeis da LUAR no pontão da Pampilhosa… trabalho pelo qual foi injustamente despedido da SOPREM, por “atividades subversivas”. Apesar de sermos de gerações diferentes… e de ideologias muito distantes, guardo na memória a narração de Augusto Oliveira do seu dia 25 de abril do ano de 1974, e de ter ida a passo apressado, a pé, da Pampilhosa para a Mealhada, para saudar a revolução democrática.

Neste texto, que João Louceiro nos confiou, salta à vista a memória de um tempo não muito longínquo, e – usando as palavras do próprio Louceiro – “A criança que Augusto não teve direito a ser, o jovem com coragem para reagir às condições difíceis a que era sujeito e capaz de aprofundar consequentemente a sua consciência política; o homem que assumiu tarefas de intervenção política na clandestinidade que, se a alguns parecessem de somenos, havia que os lembrar que implicavam uma ameaça permanente sobre a liberdade e a própria vida…”

Obrigado Augusto Oliveira por ter sido quem foi.

Nuno Castela Canilho, a 6 de março de 2012, no dia do 91.º aniversário do Partido Comunista Português

Autor: Jornal da Mealhada

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