Milhões uma palavra desgastada e aviltante
A humanidade entrou num ciclo financeiro, económico e social tão natural e, por vezes, aceite pela sociedade, que os números […]
A humanidade entrou num ciclo financeiro, económico e social tão natural e, por vezes, aceite pela sociedade, que os números com muitos algarismos capricham por se tornarem uma banalidade e a sua simples enumeração confere-lhes apenas relativo impacto e até incrível vulgaridade. Enquanto, há uma/duas décadas falar de milhões impunha respeito e quase sufocava a pessoa ao ouvir a palavra dado o poder e a força que impressionava, actualmente e devido à frequência com que a cifra é divulgada, o extenso número de algarismos árabes quase não causa surpresa. As pessoas habituaram-se, sobretudo pela comunicação social e pelas conversas dos políticos e economistas, a receber sem pestanejar a palavra milhões. Sabemos que a desvalorização da moeda e a crise económica, social, financeira e, sobretudo com a política da incompetência, originaram a diluição progressiva da quantidade de algarismos necessários para obter um milhão, mas deve entender-se que foi a globalização e o conceito do valor numérico postos a circular em doses contínuas que esvaziaram a importância e a surpresa que o número reflectia. Aceita-se, hoje, com manifesta naturalidade e até indiferença, mas, por vezes, com revolta, a quantidade milionária, dado o comum das saturantes intervenções, frias, de alusão aos milhões, pelos responsáveis governamentais e teóricos da matéria. Estes, já não ligam a milhares só milhões! Um desaforo com humilhação aos pobres e que vivem na miséria.
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Texto de Mário Nunes publicado, na integra, na edição impressa de 12 de junho.
Autor: Jornal da Mealhada
