Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Monstros

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Dezasseis quilómetros ao largo da Toscana, província de Grosseto situa-se a ilha de Giglio, cenário e palco do mais recente […]

Dezasseis quilómetros ao largo da Toscana, província de Grosseto situa-se a ilha de Giglio, cenário e palco do mais recente desastre marítimo, desta vez na Itália e na Europa. Como as noticias hoje se difundem com a velocidade da luz o desastre que envolveu o Concórdia, uma gigantesca nave de cruzeiros que transporta no seu bojo cerca de quatro mil passageiros, chegou no dia seguinte a todo o mundo e por todo o mundo cada habitante do planeta o seguiu , interpretou e adaptou á sua maneira de ser e ver.

Talvez para a grande maioria um acidente evitável , inconcebível, desastroso e fruto da irresponsabilidade duma tripulação descuidada. De facto o barco lá está junto da costa encravado nos rochedos, tão previsíveis como dias de chuva no inverno, barriga parcialmente de fora , o rombo na parte inferior do casco meio á mostra meio escondido , esperando ser rebocado para um estaleiro de manutenção ou para a sucata, enquanto vão retirando do interior corpos das vitimas desaparecidas.

É um autêntico hotel flutuante, como dizem os vendedores do produto, sonhos, que deixou de flutuar, uma espécie de Titanic em escala mais reduzida e de tempos mais preparados para todo o tipo de viagens. Giglio, a pequena ilha de mil e quinhentas almas onde encostou, pode vir a ter mais ou menos turistas enquanto existir espectáculo para observar , porém , com a desgraça alheia, ganhou muitos pontos em relação ao conhecimento da sua situação geográfica e ao principal negócio dos seus naturais, precisamente o turismo , que suplantou a pequena agricultura tradicional.

A verdadeira culpa desta tragédia não pode ser assacada senão aos tripulantes, claro que com o comandante á cabeça e depois toda a hierarquia interveniente no processo, mas é o capitão em última instância , o primeiro responsável . Temos disso exemplos em toda a nossa história marítima e piscatória muitos deles pagaram com a vida os erros executados. É uma regra, ou era, claramente definida em actividades humanas, exceptuando , como também é regra os abusos do poder ou ditaduras , onde quem manda pode e o resto obedece ou cortam-se-lhes a cabeça. Mas isto sendo casos excepcionais, confirmam a regra.

Neste caso do Concórdia o comandante, um tal Francesco Schettino está envolvido num processo de culpabilização e apuramento de responsabilidades , mas , em primeira instância, foi afastado das suas funções ou seja , ficou sem o emprego. Tal e qual como nos meus tempos de bancário em que um caixa que tirasse dinheiro da caixa, ficava irremediavelmente sem trabalho. São actos que , segundo a ética das coisas comuns não tem discussão, como que uma regra imposta pelo instinto, por tal motivo são aceites espontaneamente como património genético que são.

Estes actos da história do caixa da caixa, como muitos outros, eram verdadeira e pesadamente punidos porque na altura se entendia e interpretava que tinha que ser assim, a sociedade não só não perdoava como perdia credibilidade se o fizesse. E no meu entender,bem. Daqui a dizer-se que a sociedade de então era mais honesta, vai um passo. Diferente mas mais honesta. Injusta, mas mais justa. Desequilibrada, mas mais equilibrada. Deseducada, mas muito mais educada. São conceitos éticos aquilo de que estou a falar, conceitos que se perderam em gerações posteriores e em sucessivas reformas levadas a cabo por ministérios da educação cada vez mais destruidores, reformistas, incompetente mas também pela degradação continua do corpo social que nos compõe.

Na justiça, o caso não fica atrás, porque dos Schetttinos nacionais,piores que o descuidado Francesco, aqueles que depois da revolução levaram o país á bancarrota em que está, nem sequer foram , ou são, incomodados em primeira instância, são puramente absolvidos mercê dum voto nas urnas que é , não tenho duvidas nisso, fruto de publicidade enganosa. Como tal, punível,se as leis funcionassem e fossem pesadas nas suas consequências. Mas não há leis para eleitos. Não há lei para políticos. Não há lei para a incompetência. Não há lei para enriquecimento ilícito. Não há lei para alguns portugueses!

Para políticos, apenas as revoluções ditam as leis, elas que, para o poder instituído acabam por ser ilegítimas.

Democracia é democracia , por isso bem poderia funcionar, mas como pode uma Assembleia algemada pelos interesses do grupo , pergunta-se hoje, legislar contra si própria contra os seus próprios interesses , regalias , ambições e fácil acomodamento? É uma pergunta supérflua, absurda ?

Não o faz porque se alterou o conceito de valores de verdade e seriedade que transformou a política,que é por definição original uma obrigação nobre, digna , cívica e dever de todo e qualquer cidadão , numa profissão e a profissão num jogo de interesses e cumplicidades. Os partidos políticos são agências de empregabilidade onde tudo vale, onde o interesse dos seus membros é negociado e trocado por benefícios, onde o serviço publico visto como propriedade de quem ganha , é partidarizado e dividido entre interessados e corrompidos, onde a democracia se transformou em gamela onde uns comem e outros vêem comer. Estou a falar de ética, de conceitos morais, é verdade, mas que traduzido pelas situações práticas que cria e gere, faz a injusta sociedade onde vivemos. Onde a maior parte da população que vive em condições dia a dia dificílimas, é obrigada a saldar as dividas que o pós revolução criou, usufruindo final e ironicamente do paraíso da Europa, onde a democracia acabou para dar lugar a um sacro império franco germânico de amargo sabor a imperialismo .

A ilha de Giglio fica não longe da ilha de Elba e pode-se atingir tomando em Porto Santo Stefano o barco da Maregiglio. Não é longe de Pisa ou Florença e separam-na cento e sessenta quilómetros de Roma pela Via Aurélia. O Concordia, entretanto encalhado nos rochedos que por todo este mar são muitos e identificados, vira a chaminé para a ilha e deixa fora de água uma barriga alinhada e comprida. A seu tempo será rebocado dali mas entretanto, nos estaleiros de Sestri na parte oeste da cidade de Génova, está em fase de conclusão um gigante do mesmo tipo que vai ser lançado ao mar no mês de Março. E pelas noticias, com os milhares de lugares já reservados.

A morte, como o negócio, paga-se com dinheiro e esquece.

Olho uma última vez o bojo do navio quando regresso ao continente e simbolicamente vejo ali o meu país, apenas com o bojo transformado em cabeça, que ajudada por algumas bóias alheias respira fora da superfície da água. Com uma diferença substancial, enorme. O barco é matéria inerte, Portugal matéria humana. O barco representa dinheiro, Portugal ,como qualquer outro país,é formado por gente, gente viva que não se deve nem pode esquecer, muito menos coartar nos seus direitos fundamentais, entre eles o direito á saúde , á educação, ao trabalho.

Este será talvez o primeiro dos conceitos , éticos e não só, que a globalização vai ensombrando nas suas malhas de competividade compulsiva, onde o ser humano deixa de ter lugar como ser humano e passa a ser um objecto ao serviço do mercado. O mercado é tudo, o homem nada, apesar de, em derradeiro limite , não haver mercado sem indivíduos.

No caso português, obedientes servos prontos a demonstrar a nossa capacidade no papel de criada de servir, sem qualquer remoque para quem dignamente o exerce, o Governo esqueceu por completo as pessoas para se preocupar exclusivamente com as coisas. Excluindo os banqueiros que estiveram no meio da crise e políticos cujos rendimentos são milionários e milionários continuam , todos somos obrigados a pagar a bancarrota que uns e outros, banqueiros e políticos, conseguiram fazer da revolução de Abril. Bem a podem cantar porque , ao contrário dos Schettinos que trabalham neste mundo, estão isentos de responsabilidades,apesar de serem todos de maioridade e saberem o que fazem.

Ainda se fosse para construir um país novo e honesto que todos entendêssemos, interpretássemos e assumíssemos, vá que não vá, mas para prolongar e aumentar a agonia

do monstro chamado defit cavando mais desemprego e pobreza para aqueles que o não fizeram, não se percebe.

Bem prega Medina Carreira entre os papagaios da nação, pelintras sem cabeça e sem futuro, diz, e a confirmar as suas opiniões veja-se a Grécia a caminho do incumprimento apesar das ajudas liberais. Cá por fora vai-se afirmando com poucas dúvidas que Portugal vai a seguir ! Oxalá se enganassem , embora que tal facto seja para bem dos mesmos e não dos portugueses!

Genova,Fevereiro,2012

FERRAZ DA SILVA

CRÓNICAS LOCAIS #115

Autor: Jornal da Mealhada

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