“Não foi para me calar.” Motorista e ex-candidato do ADN nomeado assessor dos transportes urbanos de Coimbra
O motorista defendeu como candidato do ADN em Coimbra que os “serviços municipais devem dar prioridade aos portugueses”, mas fala agora em paz social
O motorista Sancho Antunes, que foi candidato do ADN à Câmara de Coimbra, foi nomeado coordenador técnico de uma secção de assessoria ao conselho de administração dos Serviços Municipalizados dos Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC) criada há 15 dias.
De acordo com uma comunicação interna de terça-feira a que a agência Lusa teve acesso, o presidente dos SMTUC, Eduardo Barata, nomeou Sancho Antunes, trabalhador da casa, para exercer funções na categoria de coordenador técnico na Secção de Apoio e Assessoria do Conselho de Administração dos Transportes Urbanos de Coimbra.
Sancho Antunes, motorista dos SMTUC, pertence à Comissão de Trabalhadores (CT) e foi o cabeça de lista da candidatura do ADN à Câmara de Coimbra, com 0,54% dos votos nas eleições de outubro de 2025.
Além disso, foi fundador e presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes Urbanos do Centro, cuja criação foi revelada pelo próprio pouco depois das eleições, em declarações ao jornal local Diário As Beiras.
A secção onde irá assumir funções como coordenador técnico funciona na dependência do Conselho de Administração (CA) dos SMTUC.
Quer ser “a linha direta dos trabalhadores”
À agência Lusa, Sancho Antunes confirmou a nomeação e afirmou que aceitou o desafio para “melhorar o serviço dos SMTUC e conseguir recuperar a confiança dos passageiros”.
Segundo o próprio, no início de janeiro, houve uma reunião dos cinco elementos da CT com a presidente da Câmara, Ana Abrunhosa (PS/Livre/PAN), que pediu que fosse escolhido alguém entre os elementos da Comissão de Trabalhadores para desempenhar o cargo para o qual foi agora nomeado.
“Fui escolhido por unanimidade, com a exceção do meu voto”, contou Sancho Antunes, que saiu em fevereiro da liderança do sindicato, mas que pretende continuar a exercer funções na Comissão dos Trabalhadores dos SMTUC.
Nas funções que agora exerce, irá ser “a linha direta dos trabalhadores” com o CA, numa secção onde pretende garantir “um diálogo mais aberto” com a administração e ajudar na resolução de problemas identificados, fazendo uso do “conhecimento prático do serviço” que tem, disse, afirmando que também pretende “contribuir para uma maior paz social” na empresa, que teve várias greves em 2025.
Apesar de estar, de momento, sozinho no gabinete, Sancho Antunes afirma que está “englobado num grupo de trabalho”.
Sancho Antunes, que foi muito crítico no passado de anteriores executivos na gestão que fizeram dos SMTUC, vincou que o acordo com o CA é de manter “a mesma linha de preocupação que tinha no passado”.
“Antigamente, mandava as preocupações por escrito, agora tenho comunicação direta. Isto não foi para me calar e tenho agora outras ferramentas para fazer o trabalho que já fazia”, disse, vincando que, apesar da nomeação, continua “a ser de direita”.
Questionado sobre o vencimento base, Sancho Antunes afirmou que até poderá ganhar menos, por deixar de ter os suplementos de turno e abono de falhas que tinha como motorista, apesar do vencimento base passar de cerca de 1.100 euros que auferia para cerca de 1.400 euros.
De acordo com a publicação em Diário da República, esta nova secção tem como funções apoiar a preparação de propostas estratégicas de gestão, manter atualizados mecanismos analíticos do desempenho global dos SMTUC, coordenar a integração de avaliações internas e externas, e promover estudos, facilitar a ligação com órgãos consultivos e dinamizar sessões de reflexão estratégica e gerir canais de sugestões, entre outras.
“Dar prioridade aos portugueses” contra a imigração
Sancho Antunes assinou, em 2025, o programa eleitoral do ADN para as autárquicas em Coimbra. O Jornal Frontal constatou que o motorista defendeu que “em Coimbra, as políticas sociais e os serviços municipais devem dar prioridade aos portugueses, com especial enfoque nos residentes e contribuintes locais. Os apoios não podem continuar a ser atribuídos de forma indiscriminada cidadãos estrangeiros ou recém-chegados,em detrimento das famílias conimbricenses que aqui vivem,trabalham e pagam impostos. Recusamos o multiculturalismo imposto, que tem vindo a desfigurar a identidade urbana e cultural da cidade, substituindo valores enraizados por práticas alheias à nossa realidade” – constava também do programa do candidato.”
Comentários da oposição às nomeações camarárias
A sua nomeação provocou comentários nas redes sociais, entre estes, o da antiga vereadora da Coligação Somos Coimbra, que governou a CMC de 2021 a 2024.
Ana Maria Cortez Vaz apelidou de “mercantilização da política em Coimbra ou a versão vergonhosa da história do toma lá, dá cá.” Referindo-se a outra nomeação polémica recente da atual Câmara Municipal, Ana Cortez Vaz escreveu: “Votas ao meu lado, toma lá a presidência da Gerência do ITAP! Organizas greves na campanha, parando a cidade, mas depois de eleita, greves só ao sábado, toma lá o cargo de coordenador técnico! Que dirão algumas pessoas, que muito considero, que integraram (ou integram) a coligação? Que dirão o PAN, o Livre, o CpC? E mesmo o PS?” – questionou.
Autor: Maria da Graça Polaco

