Nuno João Comandante Bombeiros Voluntários da Mealhada: Custa muito ouvir críticas aos bombeiros, é humanamente impossível fazermos mais
114 mortos. 45 vidas perdidas nos vários incêndios do dia 15 de outubro. 65 pessoasxa0já tinham morrido, num só incêndio, […]
114 mortos. 45 vidas perdidas nos vários incêndios do dia 15 de outubro. 65 pessoasxa0já tinham morrido, num só incêndio, em Pedrógão Grande. Mais 4 pessoas perderam a vida, noutros incêndios ocorridos em 2017.xa0235 mortos desde o início do século, por causa dos incêndios, em Portugal. Dos quais 114 nos últimos quatro meses.xa0
Desde junho arderam 500 mil hectares de floresta. Por consequência, dezenas de casas foram destruídas pelo fogo, que atingiu também muitas empresas, causando prejuízos financeiros avultados, bem como a nível ambiental e patrimonial.xa0Áreas de cultivo foram arrasadas, morreram milhares de animais.xa0Os incêndios deste ano ultrapassaram, de longe, em área ardida, os últimos 10 anos.xa0
Os fogos fustigaram com particular intensidade as regiões norte e centro de Portugal, gerando um cenário de morte, destruição e medo.
Momento para uma avaliação rigorosa sobre o problemático e delicado assunto. O Jornal da Mealhada esteve à conversa com Nuno João, Comandante dos Bombeiros Voluntários da Mealhada.
Que explicações encontra para que este ano tenham acontecido tantos incêndios?
Andamos a notar que os incêndios são cada vez mais violentos, extremos, sendo que são precisos cada vez mais meios de combate a esses incêndios para os conseguir dominar. Para os bombeiros são criados alguns constrangimentos, é sabido que o número de bombeiros voluntários está a diminuir, e falo de uma forma geral, quase todas as corporações do país se queixam do mesmo. O número de incêndios florestais tem vindo a aumentar, são necessários mais homens, mais tempo para efetuar o combate a esses incêndios e a balança começa a ficar muito desequilibrada.
Em relação aos inúmeros incêndios de 15 de outubro, o que falhou?
Estes últimos incêndios que tiveram lugar principalmente na região Centro, são fruto de anos em que não se registaram incêndios nesses locais, ou seja, a floresta estava completamente desorganizada. Estramos a falar de incêndios como os de Arganil, Pampilhosa da Serra, Coimbra, Oliveira doxa0Hospital, etc.xa0Em dez, quinze anos a floresta desordenadamente foi crescendo. Também as alterações climatéricas têm contribuído para isso, se bem que eu acho que, e sem provas disso como é evidente, são demasiados incêndios ao mesmo tempo, o que me parece que haja aqui mão humana, mas de forma negligente e também intencional.
Oxa0que levouxa0a que o diaxa015 outubroxa0fosse considerado o pior do ano?
Começa por ser um dia atípico em termos meteorológicos com temperaturas altas e ventos fortes, e uma série de incêndios que nos fazem pensar que não é o vidro ou uma ponta de cigarro que pode causar essas ignições, haverá mais qualquer coisa, talvez descuido das pessoas, sim, porque se continuam a fazer queimadas num período em que tal não é permitido, mas também acho que aconteceu qualquer coisa intencional que provocou tantos incêndios.
A 15 outubro, viveram duas situações complicadas?
Axa0nossa corporaçãoxa0estevexa0no incêndio de Oliveira do Bairro que chegou à Zona Industrial dexa0Oiã, quando surgiu um foco de incêndio na zona de Póvoa de Garção, que foi atacado inicialmentexa0com outros meios que tinham ficado no Quartel. Até que tivemos que retirar os meios de Oliveira do Bairro para dominar este incêndio na Póvoa de Garção. É sempre uma situação difícil de gerir. O nosso principio é sempre de ajuda aos nossos vizinhos, mas quando temos que retirar meios porque temos um incêndio na nossa casa é sempre constrangedor.xa0
xa0É recorrente ouvir falar de falta de meios. De que forma encara este problema?
O que mais se torna evidente é a falta de recursos humanos, não de veículos. Infelizmente acontece em quase todas as corporações do país, é um problema genérico. As corporações vivem à custa dos voluntários e cada vez menos há pessoas disponíveis para este tipo de voluntariado. É muito exigente, além da formação de 40 horas obrigatórias por ano, existe também a obrigação de número de horas dexa0voluntariado que é de 170. O grau de exigência é enorme, o que se pede é muito e há cada vez menos pessoas para isso.
A profissionalização dos bombeirosxa0é essencial?
Defendoxa0que não seja 100% profissional, mas a tendência tem que seguir o caminho da profissionalização. É importante a primeira intervenção, e quando falha, por exemplo nos incêndios florestais, eles passam a grandes incêndios. Se essa intervenção for profissional, está sempre disponível, não ficamos à espera da disponibilidade dos voluntários ou de um toque de sirene, intervém de imediato.xa0 Se bem que tem que ser complementada essa profissionalização, com o apoio dos voluntários. Durante todo o ano temos uma série de ocorrências, sejam incêndios urbanos, florestais, acidentes, emergência hospitalar, e numa grande ocorrência são sempre necessários 7/8 bombeiros, portanto os voluntários iriam complementar essa intervenção. No caso dos incêndios florestais, seria impossível ter em determinado dia à volta de 5000 bombeiros todos profissionais no terreno, isso seria impossível.
Recuando a junho deste ano, a nível concelhio aconteceu o incêndio em Barcouço. Como classifica este incêndio?
Foi um incêndio preocupante. Tendo ocorrido no nosso concelho, e numa área de intervenção dos Bombeiros da Pampilhosa, obviamente quexa0intervimos com tudo aquilo que tínhamos. Foi um incêndio que entra na linha dos que nós temos visto este ano, foi tudo muito rápido, muito violento, em que os ventos ditaram a progressão do incêndio. Estamos a falar de um incêndio que estava orientado num sentido e de repente, uma mudança de vento vai fazer com que a frente de fogo tivesse avançado sobre o Pisão e Barcouço. Este e outros são incêndios que se desenvolvem em condições em que a humidade é muito baixa, altas temperaturas e o vento faz com o fogo progrida a uma velocidade enorme.xa0
Como é estar no terrenoxa0perante estas condições?
Perante estas condições os bombeiros sentem impotência, porque na realidade não conseguimos acudir a todas as situações. Por exemplo, na Póvoa de Garção, o incêndio estava perto das habitações, quase que é preciso um carro em cada quintal para defender as habitações, e nós não temos esses meios.
Após um ano com tantos incêndios, que forma é que se deve preparar o futuro?
São importantesxa0as resoluções que saíram do último Conselho de Ministros, como seja a aposta na profissionalização dos bombeiros o que é um passo muito importante. Depois no que diz respeito à gestão dos meios aéreos, defendo que não esteja só nas mãos dos privados, a Força Aérea tem um papel importante a desempenhar. Nos incêndios de 15 de outubro, um dos problemas que identifico, foi a falta de meios aéreos no ataque inicial, porque se os meios aéreos que foram reduzidos – estivessemxa0empenhados no ataque inicial, eu creio que não teria acontecido uma calamidade tão grande.
Face ao que aconteceu, os bombeiros também não espaparam a críticas, de que forma as sente?
Como em tudo aparecem sempre os treinadores de bancada. Custa-me muito ouvir e ler essas críticas, não pelo lado de que somos uns coitadinhos, e fazemos isto por amor à camisola, não, não é por isso. Custa-me porque os nossos bombeiros são pessoas com muita formação, treinoxa0em incêndios florestais. Se não fazemos mais é porque não conseguimos. Não há ninguém com maior motivação no combate aos incêndios do que os bombeiros, nem os profissionais têm uma motivação tão grande. A nossa motivação não é económica, é solidária e se os bombeiros voluntários da Mealhada e de outras corporações não conseguiram fazer mais, é porque humanamente era impossível. Podem confiar em nós.
Éxa0Comandante desde 2014xa0dos Bombeiros Voluntários da Mealhada, tem sido uma tarefa exigente?
Tem sido um grande desafio. Não é fácil gerir voluntários, no entanto o prémio que tenho é sentir a disponibilidade que dão a esta causa. Prestamos um serviço muito importante na nossa sociedade, é o serviço da proteção das pessoas, e que por vezes tem sido desvalorizado. Um bombeiro desta corporação tem que vir cá dormir três vezes por mês, não é fácil. Temos bombeiros que trabalham por turnos e ainda conseguem disponibilizar do seu tempo familiar 3 noites por mês. Quando toca a sirene, largam tudo o que estão a fazer e vêm para o Quartel. As pessoas não nos dão o devido valor, deviam tentar perceber como funciona um corpo de bombeiros. Não é fácil comandar, nem ser bombeiro. Este ano até já assistimos a agressões a bombeiros, por outro lado temos muita gente que nos acarinha. Percebo o drama das pessoas que de repente ficam sem nada, entendo perfeitamente, mas as pessoas também têm que perceber que não conseguimos estar em todo lado se assim fosse éramos muito felizes.xa0
Por fim, e em relação às obrasxa0pensadas no vosso quartel, o que está programado?
No primeiro trimestre de 2018 vão arrancar as obras de remodelação no Quartel, que incidem nas áreas operacionais, nos balneários e camaratas, de forma a criar o máximo de conforto aos bombeiros quando estão cá.
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Autor: Jornal da Mealhada
