O amor vence sempre
Há muito que o queria visitar. Aliás, já tinha recebido vários recados para que passasse por lá, sem urgência, mas […]
Há muito que o queria visitar. Aliás, já tinha recebido vários recados para que passasse por lá, sem urgência, mas quando pudesse.
Entrei e fui logo presenteado com a doçura de trato da esposa e com a simpatia daquele bom homem, deitado na cama, a gozar o pouco que lhe resta de vida. Depois das saudações iniciais, a esposa disse-me:
– Vou deixar-vos à vontade. Qualquer coisa, estou na cozinha!
Entretanto, ele pede-me que feche bem a porta do quarto. Assim o fiz. Começou então:
– Senhor Padre, não chego ao Natal! Só espero que Deus me receba lá «em cima»! Foi uma vida inteira, no erro! Mas, não culpo ninguém
Conforme ia falando, notei a sua voz trémula e pesadamente emocionada, mas com um tom convicto e decidido.
– O que me custa mais são os filhos. Passam semanas inteiras sem nada dizer! Nem um telefonema. Mas, também cresceram sem nunca lhes ligar nenhuma! Mal os via. Saía cedo para o trabalho e quando regressava, gastava o tempo na taberna. Pobres! Se não fosse aquela «santa» que ali está dentro, não sei o que seria deles!
O que me ia dizendo era acompanhado pelas lágrimas que lhe escorriam pelo rosto.
– Durante toda a minha vida não fui humilde para reconhecer o mal e as asneiras que fiz. Depois, fiquei doente e todos me abandonaram, menos a minha mulher. Sabe, ela gosta mesmo de mim. Doente como anda e não me deixa faltar nada! Não sou merecedor. Se soubesse o que eu a fiz sofrer.
Lá me foi contando os anos a fio em que deu mau viver à família, onde entrou a violência física e verbal. Mas ela foi sempre dedicada, nunca desistindo dos filhos e também dele. A certa altura, perguntei-lhe como é que foi possível a esposa ter aguentado tanto. Ele respondeu, sem hesitação:
– Ela tem muito bom coração e uma fé imensa. Só com ajuda de Deus. Olhe, nunca a vi deitar-se, ou levantar-se, sem antes rezar. É mesmo uma santa!
Começou de novo a chorar, mas por se sentir indigno perante tão grande mulher.
– Senhor padre, só agora percebi verdadeiramente, depois de estar aqui deitado, como ela é boa. Eu não a merecia. Mas foi Deus que não me quis deixar abandonado e mandou-ma, para ser minha mulher.
Sentia-me interiormente emocionado com o que ouvia. Falei-lhe, então, com alguma atrapalhação, na bondade de Deus. Algo que não se descobre com o «saber» da inteligência e das ideias, mas com o «sabor» do coração e da vida, quando arriscamos o amor.
Ele acompanhava o que lhe dizia, acenando com cabeça afirmativamente e limpando do seu rosto as lágrimas que não paravam de cair. No final, diz-me:
– Vejo que já está cansado. Não se detenha mais comigo. Foi tão bom esta conversa.
Tentei dizer-lhe que não havia problema, poderia ficar mais tempo, ali, junto dele.
– O senhor padre, vá. Deve ter muita coisa para fazer.
Despedi-me, então, e dobrando-me sobre a cama, dei-lhe um abraço sentido. Percebi a força que os seus braços frágeis manifestavam.
Ao sair, saudei da mesma forma a esposa, dando-lhe um abraço e pedindo que tivesse cuidado com ela. Só me respondeu:
– Reze por ele, para que não sofra muito. Eu cá me aguento, com a ajuda de Deus.
Ao final do dia, já na cama, recordei-me da visita àquele bom homem e àquela «santa» mulher. Contemplei, mais uma vez, a força que Deus pode conceder àqueles que se dispõem a abrir o coração ao amor. Percebi, também, como é perigoso sermos reféns das nossas ideias e das nossas «inteligências», perdendo a humildade. Por fim, compreendi que, como aquele homem «reconciliado» consigo mesmo e com a vida, o segredo da paz passa sempre por assumir a verdade do que cada um é e da história que protagoniza.
Autor: Jornal da Mealhada