«O Bem não faz barulho e o barulho não faz bem!»
Ao avaliar o meu primeiro ano como Padre a servir esta região, apetece-me fazer silêncio! Silêncio por que desejo manifestar […]
Ao avaliar o meu primeiro ano como Padre a servir esta região, apetece-me fazer silêncio! Silêncio por que desejo manifestar o encanto que me tocou, mais uma vez, nesta minha missão de «pastor», ao perceber como o coração deste povo é feito de «bem». Sim! Só no silêncio, sem os «barulhos» momentâneos da precipitação e do desequilíbrio de alguns, o «bem» que há em todos, pode ser conhecido e saboreado! Ao longo deste ano, em tantos momentos de «silêncio», pude deliciar-me com o «bem» que faz bater o coração deste povo da Bairrada, ao qual agora pertenço!
Com efeito, fez, no passado dia 15 de outubro, precisamente, um ano em que entrei ao serviço pastoral destas comunidades cristãs Mealhada, Casal Comba, Vacariça e Ventosa do Bairro e como Capelão da Santa Casa da Misericórdia da Mealhada. Foi um tempo cheio e em cheio! É impossível identificar e quantificar o que se fez, mas não interessa isso! A vida não é a soma do que simplesmente fazemos, mas sobretudo dos que amamos! Aliás, este ano, aprendi a amar, como padre, a todos que me foram confiados. Depois, é convicção profunda para mim, que é Deus quem faz, em nós e através de nós, o que importa realmente, sem o toparmos sequer!
Apesar disso, não posso deixar de destacar, o momento marcante que foi a Visita Pastoral do Senhor Bispo de Coimbra. Ficará na memória de todos e de cada um de nós a experiência do que há de mais belo na fé e que ela mesmo provoca para os que a vivem, a saber: a comunhão! A Visita do Senhor D. Virgílio Antunes veio recordar que, como Igreja, a nossa tarefa primeira é a da comunhão, dentro e fora, das igrejas.
Realço, também, os inumeráveis encontros e diálogos que foram proporcionando novas relações, a descoberta de pessoas belas e com imensos dons, gente boa de coração e de vida, tantos onde a felicidade se torna real porque a luta pela mesma é concreta. Não esqueço jamais, os que encontrei a sofrer, desesperados e sem ânimo; pessoas que deixaram de sonhar, que perderam a fé, em tudo e em todos, até nelas próprias. Foi um ano intenso onde, a cada momento, me senti chamado a sofrer com os outros! Claro, que no meio de tantas feridas e dores, foi possível ajudar muitos a descortinar, dentro si mesmos, sinais de esperança e pequenas luzes de anúncio do fim da escuridão.
Por fim, não posso deixar de mencionar o trabalho extraordinário de «bem» silencioso que vai acontecendo no dia-a-dia, protagonizado por tanta gente, também por tantas instituições, nesta região em que sou Pároco. Destaco, sobretudo a Santa Casa Misericórdia da Mealhada, nas suas muitas valências, e que sirvo como Capelão. É impressionante, como desde os mais pequenos detalhes até aos grandes eventos, se sente, em todos os que a servem e nela são servidos, a fragância da bondade. A SCMM é uma instituição de muita humanidade e muito humanizadora! Só o percebe quem faz «silêncio»!
Claro que não posso deixar de reconhecer a dificuldade que deve ser administrar, gerir e trabalhar numa «empresa de economia social». Sim! Por vezes, mesmo sem querer, surge «barulho» porque há exigências financeiras a cumprir e regras a assumir na articulação de serviços e pessoas. Mas, apesar de tudo isso, o que é fantástico é esse bem feito por corações bondosos, onde a generosidade que deles emerge jamais poderia ser remunerada!
Continuo com o mesmo desejo de há um ano: «ser um padre de todos e para todos», ajudando a que cada um, na experiência de ser Igreja, possa construir-se como pessoa feliz, ou melhor, deixar-se construir por Aquele que quer a felicidade de todos, Deus. Para tal, são muitos os projetos e a necessidade de algumas mudanças, mas sempre confiante de que tudo será possível, pois a maior força é a do amor de Deus em nós!
Termino, como comecei no título, com uma afirmação de São Francisco Assis: Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado. Resignação para aceitar o que não pode ser mudado. E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.
Autor: Jornal da Mealhada
