Sexta-feira, 02 de Janeiro de 2026

O Natal dos profissionais que cuidam dos idosos

O Natal dos profissionais que cuidam dos idosos

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O Natal dos profissionais que cuidam dos idosos

[…] nos dias 24 e 25 de dezembro entre os turnos, as cuidadoras, auxiliares e enfermeiras transformam o Natal num momento de presença […]

Enquanto muitas famílias se reúnem à mesa na noite de Natal, há quem entre ao serviço para cuidar de quem é mais vulnerável. No Lar Doutor Canôva Ribeiro, nos dias 24 e 25 de dezembro entre os turnos, as cuidadoras, auxiliares e enfermeiras transformam o Natal num momento de presença, para que está longe da família.

“O Natal é família”, afirma Tânia Rocha, funcionária do lar. A cuidadora explica que 
vai trabalhar, mas “é praticamente a mesma coisa que fosse em casa, a diferença é que estou com a minha segunda família, que são os idosos”, expressa. As atividades são simples, mas pensadas para aqueles que não pode estar com a família. A funcionária expressa que as cuidadoras ficam com os idosos na sala. “Conversamos, tentamos animar, eles ficam mais sensíveis nesta altura”, acrescenta.

Já Marina Rodrigues, também funcionária do Lar Doutor Canôva Ribeiro reconhece a dualidade do dia. “O Natal acaba por ser um dia normal, mas com um significado diferente”, afirma. A cuidadora aponta que “alguém tem de estar, nem todas podemos estar em casa ao mesmo tempo, é a lei da vida.” Maria Costa que também trabalha no lar expressa que, “o Natal é o ano inteiro e é fazer o bem e viver de acordo com aquilo que sou”, realça.

No Lar Doutor Canôva Ribeiro combate-se o sentimento de solidão

Marina Rodrigues reforça que em relação aos idosos “tentamos apaziguar a tristeza com mimos e carinho, porque uns vão para casa e outros ficam.” A cuidadora Tânia Rocha explica que “alguns dizem que é apenas mais um ano, outros adoram ir para casa.” Por outro lado. A funcionária Marina Rodrigues, expressa que há também quem prefira ficar no lar. “Alguns sentem que nós somos a família deles”, explica. Marina Rodrigues ainda acrescenta que “a família não é só pais e filhos, um casal também é família, quando se perde alguém importante, o Natal já não tem a mesma magia.”

A hora da refeição é um dos momentos que assinala o espírito natalício. A cuidadora Tânia Rodrigues descreve que “o almoço é preparado pelo lar”, ainda acrescenta que os idosos “gostam muito quando há broinhas e outras coisinhas. Entre as funcionárias também se criam rituais e Marina Rodrigues conta que em anos anteriores trocavam “pequenas prendas e fazíamos a nossa própria ceia.”

A trabalhar no Natal acaba por ser necessária organização na vida pessoal, Tânia Rodrigues conta que “saio às 16 horas, o que custa mais são os filhos, mas ainda conseguimos aproveitar o resto do dia”. Por outro lado, Maria Costa vive uma realidade diferente. “Os meus filhos estão na Alemanha, talvez um, venha passar o dia comigo, se não for no Natal, juntamo-nos noutro mês”. Para a mesma, a data exata não é o mais importante: “O importante é estarmos juntos, não precisa de ser no dia 25”.

O contacto com os idosos também desperta memórias pessoais profundas. A funcionária Maria Costa conta que perdeu a mãe há alguns anos, “lembro-me dela todos os dias, em pequenas coisas”, conta. Neste sentido a cuidadora afirma que “trato os idosos como gostaria que a minha mãe fosse tratada.”

A funcionária Marina Rodrigues realça a importância do trabalho de equipa, “somos uma família, tanto entre funcionárias como entre os utentes”, descreve. Para a funcionária Maria Costa é o seu primeiro ano no lar e afirma de forma recetiva que “se houver troca de prendas ou convívio, entro, sem problema nenhum. Gosto de festas e de estar com as pessoas”.

A cuidadora Marina Rodrigues, salienta também que “o mais importante para os idosos é serem bem tratados, seja Natal ou não” e a funcionária Tânia Rocha reforça que a sua “função é fazê-los sentir que este não é um dia normal, é um dia vivido com amor e carinho”.

O Natal das auxiliares no Hospital da Misericórdia da Mealhada

Mas o trabalho na época de Natal não continua só no lar, há profissionais que passam o dia e a noite no hospital, garantindo que ninguém fica sem cuidados. Para Débora Freire, auxiliar de saúde no Hospital Misericórdia da Mealhada, trabalhar no dia 25 de dezembro é vivido com naturalidade. “Este ano trabalho no Natal, por isso a minha mãe fica em casa a preparar o jantar e quando chegar, janto com eles.” A auxiliar acrescenta que na sua família, a gestão destas datas é feita de forma prática. “Em casa somos duas cozinheiras, eu e a minha mãe, quando uma trabalha no Natal, a outra fica em casa”.

“A expectativa é haver maior proximidade entre as colegas que também estão a trabalhar nesse dia. Nota-se um ambiente diferente entre nós”, refere Débora Freire. Ainda assim, a mesma sublinha que, em termos de funções, o Natal não altera a exigência do trabalho. “É um dia como os outros em termos de trabalho”.

Para Lurdes Capela, também auxiliar no hospital, o Natal significa “família”. “É uma época em que a família está reunida”, afirma. A auxiliar aponta que por outro lado, “hoje em dia já não tem o mesmo significado que tinha antigamente, desde o falecimento do meu pai.” Este ano, Lurdes Capela, vai trabalhar no dia 25, mas consegue ainda estar com a família. “O meu horário permite-me passar a noite de Natal com a família”, explica.

A auxiliar expõe que a organização é pensada com antecedência. “Normalmente não faço o Natal em minha casa, vou sempre a casa da minha mãe. Na véspera ajudo a preparar algumas coisas e ela trata do resto”.

No ambiente hospitalar, Lurdes Capela sente que a quadra é vivida. “Sente-se claramente o espírito natalício, há alguma decoração, pequenos enfeites, e cria-se um clima natalício para que os doentes também entrem no espírito da época”.

O espírito positivo dos enfermeiros no serviço hospitalar

A enfermeira Catarina Fernandes, também trabalha no Hospital da Misericórdia da Mealhada e expressa que o contexto hospitalar tem um lugar importante na altura do Natal. “Há menos cirurgias, os próprios médicos acabam por não operar tanto, o que reduz o fluxo de internamentos”, afirma. A enfermeira expressa que tentam sempre que “os utentes que têm condições possam ir a casa. Quando isso não é possível, procuramos capacitar e integrar as famílias nos cuidados”, refere.

Entre os profissionais, auxiliares e enfermeiros organizam-se para celebrarem juntos. “Cada um traz uma parte da refeição, tentando recriar algo o mais próximo possível da tradição, para colmatar um pouco a ausência da família”, conta Catarina Fernandes.

A enfermeira reconhece que trabalhar no Natal pode ser gratificante. “Acaba por ser um privilégio trabalhar nesta época, porque conseguimos levar alguma alegria e conforto a quem não pode estar em casa com a família”, afirma. Catarina Fernandes explica que em casa, a compreensão da família facilita a conciliação entre o trabalho e vida pessoal. “Sempre foi fácil, porque a minha família é muito compreensiva, para eles, também é um privilégio saber que estou a cuidar de outras pessoas”, realça. A profissional de saúde acrescenta que quando não consegue estar presente na consoada e expõe que a solução é adiar a celebração. “Normalmente conseguimos reunir-nos no almoço do dia 25, e vamos gerindo assim”, afirma.

Para a enfermeira Inês Cabral, vai ser o primeiro Natal longe de casa. A profissional da área da saúde explica que o Natal sempre foi sinónimo de proximidade e partilha. “Família, união e estarmos todos juntos”, resume. A enfermeira é natural do Norte. “Este vai ser o primeiro Natal em que estarei longe da minha família, o que será um desafio”, admite. Ainda assim, a enfermeira garante que vai conseguir estar com a família no dia 25 ao almoço. “Vou conseguir estar com eles no almoço, o que acaba por colmatar a ausência da noite do dia 24.”

Embora, seja, a primeira vez que a enfermeira vai trabalhar no dia de Natal, encara o trabalho com um espírito positivo. “Espero que com as colegas, consigamos criar um momento semelhante ao que temos com a nossa família.” A enfermeira acrescenta que no contexto hospitalar, os laços profissionais ganham um significado especial.

Em relação aos utentes, Inês Cabral destaca que na época natalícia, a proximidade tem um papel ainda mais relevante. “Estar perto dos utentes neste dia é também uma forma de oferecermos um carinho àqueles que estão longe da família, nessa altura, somos a família deles.”

No que diz respeito à rotina do trabalho, a profissional da área da saúde descreve que começa por “ir ter com os doentes para ver como estão e, na hora do jantar, vou tentar estar um pouco mais com eles, para criarmos um momento de partilha”, conta.

A enfermeira Leonor Costa trabalha no hospital da Misericórdia da Mealhada desde setembro e como Inês Cabral vai trabalhar na noite de Natal. A enfermeira é natural de Coimbra.

“Vai ser um pouco diferente, porque no dia 24 costumo ter um ritual familiar, tenho o hábito de ir à missa do galo, uma tradição de muitos anos, que este ano não vai acontecer”, explica. Ainda assim, a enfermeira garante que esta possibilidade já fazia parte das suas expectativas profissionais. “Desde a licenciatura que sabia que iria trabalhar no Natal ou na passagem de ano. Este ano calhou no Natal.”

A enfermeira Leonor Costa explica que a família foi avisada com antecedência. “Eles vão sem mim, tentaremos compensar noutros momentos do dia, como jantar mais cedo e estarmos juntos antes de irem para a cerimónia religiosa”, conta.

No hospital, a rotina da noite de Natal vai ser diferente do habitual para a profissional da área da saúde. “Acho que vai ser uma noite calma, porque não há a atividade normal do serviço, nomeadamente cirurgias”, afirma. Para Leonor Costa, o momento também reforça laços profissionais. “Será um momento especial entre mim e a auxiliar que estiver comigo, porque ambas deixámos as nossas famílias para estar aqui.”

Antes do dia 25 de dezembro, a enfermeira procura manter o espírito natalício em casa. “No dia 24 tentamos ver filmes de Natal, comer alguns doces e tornar o dia mais tranquilo”, descreve.

Para a enfermeira do Hospital da Misericórdia da Mealhada, Marisa Silva, o Natal continua a ser uma das datas com mais significado do ano. “O Natal é a época mais importante do ano. É quando a família se reúne, todos juntos, num momento de maior descontração e partilha”, afirmam.

Apesar de nunca ter trabalhado no dia de Natal, Marisa já passou a passagem de ano em serviço. Este ano, pela primeira vez, vai trabalhar no próprio dia 25 de dezembro, até às 20 horas. “Isso permite-me jantar com a família”, explica.

No ambiente hospitalar, a enfermeira reconhece que esta época traz algumas diferenças. “O número de utentes diminui bastante, quer na urgência, quer no internamento e no bloco, há utentes que acabam por ficar no hospital e isso custa um pouco mais, porque é um dia especial e nem todos podem estar com a família”, conta.

O espírito natalício também se reflete na relação entre os profissionais da área da saúde. A enfermeira conta que já participou em jantares de Natal da equipa e considera esses momentos importantes. “Mesmo sendo fora do hospital, ajudam-nos a confraternizar e a criar ligações mais fortes dentro da equipa”, sublinha. Marisa Silva explica que estas iniciativas surgem de forma espontânea. “Normalmente há sempre alguém que toma a iniciativa e depois organizamo-nos por grupos de WhatsApp ou Messenger”, acrescenta.

A enfermeira também destaca, destaca a importância da equidade entre os colegas. “Acho importante haver rotatividade, no ano passado trabalhei na passagem de ano e este ano faço o Natal. Se custa a mim, também custa aos meus colegas, por isso é importante irmos alternando.”

A enfermeira Leandra Lopes também vai trabalhar no Natal. “Vou fazer uma manhã longa, um turno de doze horas”, explica. Ainda assim, procura encontrar um equilíbrio entre o trabalho e a vida familiar. “Já combinei com a minha família que, no final do turno, vou ter com eles. Assim, consigo estar um pouco com a família apesar de estar a trabalhar. “A enfermeira vai estar de serviço no dia 24 e dia 25 de dezembro. “É um dia semelhante aos outros, embora se note algum ambiente diferente por ser Natal”, refere.

 “Normalmente, no dia 24 fazemos o jantar em família e, no dia 25, o almoço”, conta. Este ano, no entanto, a presença não será total. “No dia 25 já não vou conseguir estar presente no almoço.”

No contexto profissional, a enfermeira aponta que há pequenos momentos de convívio. “Tentamos almoçar todas juntas nesse dia, como há alguns utentes que têm alta para passar o Natal em casa, o trabalho acaba por ser um pouco mais leve.”

No Serviço de Cuidados Continuados, umas das profissionais da área da saúde conta que “trabalhamos num contexto muito delicado, lidamos diariamente com pessoas em situações muito vulneráveis, muitas vezes também a nível familiar. Nesta época, isso nota-se ainda mais”, explica.

Desta forma, os profissionais de saúde procuram reforçar a atenção e o apoio emocional. “Tentamos sempre dar uma palavra extra de conforto, são dias em que procuramos estar mais atentos e mais presentes”, afirma. Para muitos doentes, os enfermeiros tornam-se a principal referência. “Muitas vezes, acabamos por ser nós a família dessas pessoas nesses dias.”

Este ano, a enfermeira vai trabalhar turnos prolongados durante a quadra. “Vou trabalhar doze horas no dia 25. No dia 24 saio às 15 horas.”, refere. No serviço, o dia de Natal também traz pequenas adaptações à rotina. “Tentamos almoçar todas juntas”, explica a profissional da área da saúde. Habitualmente, as refeições são feitas de forma alternada para garantir a continuidade dos cuidados, mas no Natal há um esforço conjunto para partilhar esse momento. “Tentamos organizar-nos para comer todas à mesma hora.”

As cuidadoras no Lar tornam-se a segunda família

Na extensão do Lar Doutor Canôva Ribeiro, também trabalham as auxiliares, Juseila Pires e Ana Marques. A funcionária Juseila Pires afirma que para os utentes que permanecem na instituição os colaboradores assumem um papel ainda mais importante. “Muitos vão para casa, mas outros ficam aqui, e nós somos a família deles, brincamos, rimos e almoçamos juntos. É uma experiência muito especial”, explica a cuidadora.

No dia de Natal, a rotina sofre algumas alterações, sobretudo nas refeições. “A maior diferença está no almoço e no lanche. Passamos mais tempo com eles, preparamos comidas que eles gostam, muitas vezes lembranças das receitas que comiam em casa, como rabanadas”, conta Ana Marques. “A minha família já prepara algumas coisas antecipadamente. Na véspera, já preparo alguns pratos, e no dia 24, meu marido assa e organiza tudo para a ceia”, explica a cuidadora.

A cuidadora Ana Marques aponta que “estou aqui há 24 anos e já trabalhei em outros Natais.” Já a funcionária Juseila Pires conta que “estou no meu segundo ano, mas já trabalhei no Natal no primeiro ano”.

As cuidadoras realçam que quanto à passagem de ano, a dinâmica é semelhante, embora com menor intensidade. “É parecido, embora menos pessoas precisem ficar aqui. No Natal é mais intenso, mas no Ano Novo também cuidamos de quem fica”, destacam.

EntrevistaHospital Misericórdia da MealhadaNatalSCMM

Autor: Jornal da Mealhada

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