O PEDINTE E A CIDADE
É uma manhã fria de inverno, igualzinha a tantas outras já riscadas dos sucessivos calendários. A gente não esquece. José […]
É uma manhã fria de inverno, igualzinha a tantas outras já riscadas dos sucessivos calendários. A gente não esquece.
José acaba de chegar ao que diz ser o seu poiso, aconchega ao peito a gola do casaco coçado, parente pobre do resto dos andrajos que o cobrem, bafeja o hálito quente para dentro da concha formada pelas mãos geladas enfiadas em luvas de pano puído e negro de tanto uso. Com os tacões já gastos, da espécie de sapatos, onde traz enfiados os pés desnudados, tenta aquecê-los, fazendo sapateado ritmado na calçada à portuguesa, lustrosa de tão polida, pelo contínuo calcorrear de milhentas passadas ao longo dos anos. Umas, apressadas, quase em correria, com destinos definidos até que Deus queira e as pernas aguentem. Outras, já vencidas, vagueiam incertas, imprecisas, descrentes, desiludidas, sem alma, sem esperança num futuro melhor.
José encosta as costas ao caro mármore que reveste a frontaria dum banco comercial, deixa-se escorregar até se sentar de pernas cruzadas. Coloca à sua frente uma caixa em cartão, que outrora fora protectora de sapatos de luxo e agora é o cofre temporário de poucas moedas. Pega na guitarra e desliza os dedos nas cordas, fazendo ouvir os seus gemidos a acompanhar a sua voz rouca.
Os contrastes deste mundo. Uma mera parede separa duas realidades: do lado de dentro, o supremo poder, o dinheiro, a exploração, transformada em riqueza; do lado de fora, o trabalho, a luta, a submissão e alguma miséria proveniente dessa dita exploração.
José olhou apreensivo a linda rua Visconde da Luz, desnudada, quase sem transeuntes, com o vento a passar livre, sem ter de empurrar alguém. Outrora, não era assim, diz-me ele, as pessoas acotovelavam-se, transportavam embrulhos de papel colorido, com laçarotes feitos a preceito nos estabelecimentos, que não despegavam uns dos outros e davam alma, vitalidade, alegria a toda esta artéria cosmopolita. Com compras feitas, iam descendo a rua, a dar uma olhada noutras montras, na ânsia de novidades. E havia sempre tempo para um café ou um gelado, conforme a estação do ano. O engraxador fazia o passarinho ao puxar o lustro, o cauteleiro arrancava em vozeirão o número da sorte, o ardina dava a saber as últimas e tantos e tantos outros, ganhavam a vida honestamente, com aquele formigueiro de gente.
– O que é que fizeram à minha rua? O que é que fizeram à minha cidade? – Desabafa José. – Toda a baixa, morreu!
E com ela o sustento de muito lar.
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Um a um, os estabelecimentos foram aferrolhando as portas, depois de uma agonia atroz, por não conseguirem estancar a sangria de tantas facadas traiçoeiras, embostadas em brutais impostos, contribuições, taxas e mais taxas, licenças de porta aberta, de produtos expostos, de reclames. Alcavalas, por isto e aquilo.
Insustentáveis custos: Saneamento, água, luz, gás, telefone, seguros e o raio que os parta a todos.
Inspecções sanitárias e de segurança, multas, por tudo e por nada, concorrência desleal e ainda, o povo sem dinheiro.
As ruas da baixa estão desertas com o desespero de todos os que ainda teimam em resistir.
O coração da cidade chora, e os abutres do poder, numa cegueira devoradora, continuam insaciáveis e de braços cruzados, sem cuidarem de que poderá estar, não muito longe, o dia da sua própria indigestão.
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José acabou mais um dia sombrio, quase sem proveito, diz-me que já não o ouvem e que muitos olhos cabisbaixos percorrem a caixa de cartão: – Quem sabe se não necessitam mais do que eu. Quem sabe
E lá vai desabafando: – O que é que fizeram à minha rua, à minha baixa, à minha Coimbra.
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Opinião de Hermínio Pires
Autor: Jornal da Mealhada
