O que é a Liberdade?
Em Abril, torna-se um lugar-comum invocar vitórias e glórias do nosso país, de um passado não muito distante. Tenho presente […]
Em Abril, torna-se um lugar-comum invocar vitórias e glórias do nosso país, de um passado não muito distante. Tenho presente a importância e a enorme grandeza dos feitos de 74, pois apesar de não ser ainda nascido à data, cedo me foram transmitidos e inculcados os valores entretanto conquistados pelo povo português, que convergem todos num mesmo sentido de grande abrangência a Liberdade. Por serem recorrentes os exercícios escritos que recordam o momento e o transportam para realidades actuais, uns de forma mais encantada que outros, apresto-me desta vez a não o fazer. Não porque o desvalorize, longe disso, mas prefiro simplesmente centrar a presente reflexão no conceito liberdade em si. Sim, porque por vezes também é importante (tão importante) esquecermos por momento as nossas realidades enquanto membros de uma comunidade, com todas as suas leis, regras e regulamentos, privilegiando nesses mesmos instantes um pensamento mais direccionado para a nossa natureza enquanto seres vivos, enquanto seres vivos livres, como no fundo todos somos.
Afinal, o que é Liberdade? Em apenas duas palavras, arrisco: voluntariedade comportamental. Falo de voluntarismo pela vontade, pelo querer. Sendo livre, não terei necessariamente que ser autónomo (quem é?) ou independente (isso existe?). Sou livre porque faço as opções que entendo fazer, em consciência, e esse é o verdadeiro acto libertador, defender espontaneamente causas e revelar atitudes decorrentes de decisões próprias, sempre influenciadas, mas nunca determinadas em absoluto por algo exterior, apesar do natural respeito pelas leis morais vigentes. Mais importante ainda do que ser livre é querer ser livre, e essa sim é a verdadeira força propulsora do arbítrio de cada um. No entanto, a autodeterminação do nosso comportamento deverá ter sempre uma dimensão ética, porque nunca podemos dissociar o conceito de liberdade com o de responsabilidade, dado que um decorre do outro. Ser livre implica também a assumpção do conjunto dos nossos actos e do impacto dos mesmos nos outros e no meio, e deverá também implicar sempre o saber responder por estes. Em consciência, parece-me importante termos a capacidade de ser responsavelmente livres, o que não significa, todavia que nos tornemos reféns das nossas responsabilidades. A vontade, para o bem e para o mal, é soberana na definição da conduta de cada um.
Para muitos, a liberdade só existe mesmo quando se conseguem livrar das restrições impostas pela civilização a que pertencem. Este mesmo sentido de pertença tolhe-lhes de certa forma o instinto natural e toda a realidade psicossomática que inconscientemente vão constituindo desde o nascimento. O mundo exterior acorrenta-os, num progressivo processo de desencanto que redunda muitas vezes em grandes tragédias, em que a História é infelizmente fértil. O lado negro da natureza humana é bem real e incontornável, apesar de no fundo tudo não deixar de passar de uma opção. A cabeça de cada um permite-nos sempre escolher. Sartre defendia que a liberdade humana se revela na angústia, e a verdade é que todos temos e teremos sempre que fazer escolhas. Impliquem estas o que implicarem. Afinal, o que é Liberdade? Há pessoas ainda que, na ânsia de se sentirem genuinamente livres, acabam por embarcar numa louca e incessante procura de todo o tipo de prazer. No entender destas, só assim poderão sentir-se satisfeitas, realizadas. Entregam-se em larga medida a comportamentos supostamente libertadores, que vastas vezes redundam no fracasso, descobrindo a posteriori que afinal essa pretensa liberdade não passava de um sonho, de uma utopia. Todos caem, mas a imensa frustração causada impede muitos de se conseguirem levantar. A contínua busca pela liberdade no seu estado mais extremo pode muitas vezes levar o indivíduo à mais penosa escravidão, à mais profunda submissão.
O que importa mesmo é saber escolher, saber viver. Muitas pessoas gabam-se da sua liberdade, regozijando-se por serem livres para fazer o que lhes apetece, de forma descomprometida. Vão para onde querem, e para onde não querem não vão. Não se amarram a nada, nem a uma causa, nem a uma companhia, nem a uma família. Consideram-se livres por viver por si e para si, mas Liberdade nunca será incompatível a pertença. Liberdade é sinónimo de opção, que nos é presente a todo o instante e que por cada um é determinada. As amarras deverão ser sempre por nós livremente estabelecidas, e independentemente das opções que faço e das causas que defendo, sinto-me a pessoa mais livre deste mundo, porque todas as amarras que me caracterizam subsistem em harmonia com a minha consciência, e é essa toda a liberdade que procuro, a lealdade própria. As mais profundas convicções não terão necessariamente que ser perpetuadas, pelo que me parece que a liberdade do indivíduo reside na cristalização da lealdade própria, com a sua conduta e o seu carácter, sejam estes de que natureza for.
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Torna-te aquilo que és!, disse o brilhante Nietzsche um dia.
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Artigo de opinião de Mauro José Tomaz
Autor: Jornal da Mealhada
