Os bons velhos tempos que lá vão
Foi no seio da minha família, mas podia ser no seio de qualquer família e em muitas famílias. Tirando as […]
Foi no seio da minha família, mas podia ser no seio de qualquer família e em muitas famílias.
Tirando as viagens que, por obrigação, tinha que fazer em serviço, como as idas para Timor e Angola, de avião ou de barco, poucas fiz por motivos recreativos, enquanto médico no activo. Em Timor e Angola, durante anos e anos, não tive férias; era só um passeiozito de vez em quando para visitar um amigo ou familiar.
Por cá, depois da vinda em definitivo de Angola, e enquanto os filhos eram pequenos, sempre passávamos um mesito na praia. Sempre achei ser bom o sol que se lá disfrutava, sem exageros e a própria água do mar que a miudagem adorava e só lhes podia fazer bem à saúde.
Os pequenitos gostavam de pescar, por exemplo, na Ria de Aveiro, na Costa Nova, onde para além das canas de pesca, utilizávamos um saco de rede grande, do das batatas, a que aplicávamos um arame em círculo na boca para o manter aberto e, no fundo, colocávamos um peso. Por fim, colocava dentro umas cabeças de peixe. Lançava-se à água preso ao arame por uma corda, em geral a partir duma ponte, recordo, na ponte da Vagueira ou dum barco.
Em pouco tempo apanhávamos muitos caranguejos que, cozidos com casca de cebola e sal, eram bem bons. Posteriormente, em vez de alugar casa, optámos por adquirir uma tenda grande de campismo e assim foi possível deslocarmo-nos a Lagos, no Algarve, e até a Paris. Aqui aconteceram coisas interessantes, por exemplo, ao deslocarmo-nos numa avenida com destino ao acampamento, que ficava num bosque em Paris, indo a pé com os garotos pela mão ou ao colo, esperando apanhar um táxi, um francês parou o carro e fez questão de nos levar ao acampamento. Era raro verem-se em Paris, na altura, um casal ainda novo com quatro filhos pequenos; isso impressionou-o.
Depois substituí a tenda por uma roulotte, comprada em segunda mão, mas como a miudagem estava em crescimento acelerado, tive que adicionar duas pequenas tendas, uma para mim e minha mulher e outra para o rapaz. As quatro raparigas ocupavam a roulotte à noite. De dia era para todos.
Também mais tarde construí, com a ajuda de um cunhado, em Aguim, um barco à vela que comprei barato, em kit, feito em contraplacado marítimo. Era difícil de montar; sei que era difícil, porque muitos o compravam, mas depois não conseguiram montá-lo. Com ele e vários amigos, entrei em algumas regatas, no Mondego e mais tarde com o filho passeávamos no mar calmo da Gala, a sul da Figueira da Foz. Era leve, inafundável, fácil de transportar e, com águas calmas como na Aguieira (barragem) e até no estuário do Tejo, conseguia transportar nele toda a família e até dispunha de um pequeno motor de 2 cv e remos para uma emergência.
Foram bons tempos, belos tempos que deixaram saudades. Posteriormente, quando consegui, construí uma casita de férias perto da Figueira da Foz, não ganhei nada com isso, praticamente só lá dormi uma semana. Quem a tem utilizado são os filhos e netos que uma vez ou outra lá nos vão convidando para uma sardinhada.
Inverteu-se tudo, o meu rapaz e a mulher dele, ambos matemáticos na Universidade de Aveiro, estiveram dois anos em Inglaterra, Southampton, a estagiar para doutoramento. Convidaram-nos para ir lá passar uma semana, aproveitámos para visitar também Londres. Vimos pontes, portas, etc. Gostámos, evidentemente que gostámos.
Outros filhos nos têm convidado, vamos sempre nos encontros que promovem e nos fazem pensar nos tempos que lá vão. Temos a sorte de termos netos já graúdos e bisnetos pequeninos, que, se Deus quiser, vão ser brincalhões como os pais, avós e bisavós. Têm interesses diferentes dos que nós tínhamos. Não consigo ensinar-lhes a lançar o pião, mas eu mal sei mexer num computador e telemóveis que eles manejam de olhos fechados.
Autor: Jornal da Mealhada
