Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Os Portos da Noruega

Os Portos da Noruega

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Os Portos da Noruega

No porto de Molde, no norte da Noruega, está ancorado o velho paquete Funchal, com outra identidade, mas registado na […]

No porto de Molde, no norte da Noruega, está ancorado o velho paquete Funchal, com outra identidade, mas registado na Madeira e ostentando a bandeira portuguesa. São onze horas da manhã duma quinta feira cinzenta, chove e os passageiros embrulhados em sacos de plástico com feitios de casaco de várias cores entram e saem da nave passeando-se de loja em loja no pequeno centro da cidade. Não é grande a urbe e por ser longe, não é fácil de atingir por terra por um viajante do sul, mas por avião ou barco é acessível e em conjunto com a região envolvente é bela e convidativa.

Quando vou encher o depósito do carro á bomba da Shell o empregado fala-me do preço do gasóleo , de viagens e do tempo que faz ,pergunta-me de onde sou e quando atestado o depósito me apronto para partir pede-me desculpa pelo clima xa0chuvoso com que se apresenta o dia.

Devo referir, entretanto, que o preço da gasolina e do gasóleo neste país que é tão só o mais rico e aquele onde xa0melhor se vive no mundo, mercê de explorarem esse mesmo grude no mar do norte, é igual ao preço de Portugal, o mais pobrezinho da Europa. Esta comparação que há primeira vista pode não ter nada de importante, é ridícula se comparamos o rendimento mensal dum norueguês com a féria, propositadamente féria, dum cidadão português acusado de ser malandro e ter boas oportunidades no desemprego alastrante. Ela daria por si só a medida do que é a indignidade do salário nacional e a miséria do nosso viver comum. Só não tem vergonha desta constatação os muitos pinóquios do mando exa0 novas classes dexa0 políticos, banqueiros e outras elites escolhidas a dedo, as crônicas famílias, para quem a pobreza e mais que isso a indignidade não tem qualquer preço ou valor.

Mas a mesma indignidade, e talvez se lhe pudesse chamar rapina, se passa em relação á posse dasxa0 empresas fundamentais do país , aqui em grande maioria na mão do Estado, em Portugal , num pressa permanente da sua passagem xa0para alguns portugueses batizados dexa0 privados, xa0tidos como gênios e salvadores da pátria xa0xa0quando não passam dos tradicionais oportunistas que tudo devoram, traficam xa0e desbaratam xa0nas tragédias nacionais.

Ganhando com a chegada de fundos comunitários, ganhando com a tragédia do descalabro dos fundos comunitários. Com o ouro do Brasil, sem o ouro do Brasil. Com a canela e a pimenta, sem a canela e a pimenta. Com as remessas de emigrantes, sem a remessa de emigrantes, com colônias, sem colônias. Onde não há justiça não país, há o que temos, esta perpetua degradação dum todo a favor da incompetência duns poucos.

É provável que digamos que somos poucos em número, como desculpa de mau pagador. Olhemos porém para este povo norueguês, é metade de nós próprios e partilham como nós duma grande plataforma marítima. Resultados? Eles são os segundos exportadores de pescado no mundo, atrás da China, nós, destruidores exemplares duma frota pesqueira que não sendo das maiores trabalhava para consumo próprio. E duma frota comercial de que o Funchal é um resto e um museu. Para além de nada contarmos em termos de pescado.

É curioso que Portugal tenha sido sempre um país de incapacitados. Lida a nossa história á medida das realidades coletivas passamos oito séculos na edificação dum país que nunca conseguimos construir nem mesmo com a ajuda, às vezes em condições dramáticas, de terceiros, como no caso em que caímos hoje.

Vem a propósito o estar nas livrarias uma publicação muito recentexa0 que conta a História de Goa xa0duma forma sucinta e muito clara, sem orgulhos ou atropelos, que demonstra á evidênciaxa0 o modo de estar de muitas das elites nacionais e qual a lógica das suas atuações e modos de funcionar, no fundamental, um retratoxa0 da conquista de Goa e dos seus bens, da sua riqueza e miséria , mais uma análise detalhada sobre a nossa incapacidade atávica entre o ingovernável xa0e o ingovernado.

Creio que xa0mais uma vez a história, daqui a umas décadas, julgará os homens e as gerações e creio bem que as elites em confronto desde a revolução de Abril, irão figurar nela xa0duma maneira deprimente, um quadro não inédito, repetido e pouco dignificante dos caminhos trilhados. Creio que a clareza histórica os irá chamar de carrascos e não heróis, isto perante a mesma abnegação, paciência e não sei mais que se lhe possa chamar, dum povo condenado ao sofrimento, á oração, á mudez e á sevicia e abuso dos seus governantes, xa0mesmo mandando, nesta tragédia camoniana,xa0 em nome dele.

Deixei a gasolineira de Molde pensando que são simpáticos estes noruegueses, simpáticos como nós, já o tinha constatado em outras ocasiões, mas chegar a uma apresentação de desculpas por motivos climatéricos não me passava pela cabeça. Um modo simples e barato de cativar um turista!

Atravessei o Romasalsfjiord no ferry boat para Vernes e já no outro lado, na continuação da estrada E-34 segui para Alesunde, a maior cidade do condado e considerada a capital do bacalhau xa0classificação que me levou a conhecê-la.

Deixei as minhas homenagens ao fiel amigo sob a estátua em bronze duma peixeira de saia comprida segurando nas mãos uma caixa de bacalhau fresco, tais como o consomem onde é pescado e onde Gaspar Corte Real, pela parte portuguesa, descobriu os respectivos pesqueiros da Terra Nova, os quais a partir de 1500, reinava D.Manuel I, começaram a ser visitados pelos nossos barcosxa0 da pesca do bacalhau.xa0

Dessa derradeira história de esforço gigantesco, resulta que somos nos dias de hoje os melhores clientes da Noruega, bem me parece, pagando o bacalhau que comemos com o dinheiro emprestado pelos bancos europeus.

Uma boa maneira de honrarxa0 a história num espelho dos nossos dias!

Alesunde,Maio,2012

FERRAZ DA SILVA

Crónicas Locais#120

Autor: Jornal da Mealhada

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