Pampilhosenses unidos e mobilizados na promoção da herança ferroviária
Os pampilhosenses mostraram-se muito entusiasmados e mobilizados na promoção da herança ferroviária na localidade. A luta pela permanência da locomotiva […]
Os pampilhosenses mostraram-se muito entusiasmados e mobilizados na promoção da herança ferroviária na localidade. A luta pela permanência da locomotiva BA61 na vila, a promessa da sua instalação num museu na antiga Cerâmica das Devesas, e a partilha de fotografias e testemunhos na página do Facebook “Amigos da Pampilhosa” está a fomentar uma onda que parece não ter como parar. A prova disso foi patente na manhã de domingo, 13 de maio, com a “peregrinação” de setenta pampilhosenses ao armazém onde está localizada a locomotiva e o ambiente que nesse local foi vivido por todos.
A iniciativa foi convocada pelo Movimento Cívico pela Permanência da Locomotiva BA61 na Pampilhosa. Foi criada uma t-shirt branca com uma fotografia do veículo e a sua placa identificadora e, ao som de uma xaranga da Filarmónica Pampilhosense, os setenta activistas – a maior parte da Pampilhosa, mas também, outros de outras proveniências – rumaram ao armazém onde tem estado e em breve terá de deixar de estar a “menina”, como lhe chamam os principais organizadores do movimento.
A maior parte das pessoas já não via a locomotiva há quase duas dezenas de anos. Daí que o espanto tenha sido significativo. Pela degradação, pela falta de algumas peças, pelos dizeres escritos na superficie…
Vitor Simões, o porta-voz do movimento, foi o primeiro a subir para cima da locomotiva e, dali, dirigiu algumas palavras aos presentes (discurso pode ser visionado no video em anexo a esta noticia). Na sua prelecção, Vitor Simões deu conta das ações que o movimento tem perpetrado e salientou: “Parece que as coisas estão bem encaminhadas”.
Mas Vitor Simões, depois de sugerir a memória da imagem da locomotiva quando ela esteve exposta em frente à estação da Pampilhosa, fez o relato do que tem sido – apesar do conhecimento público da luta e da entrega dos pampilhosenses – o saque diário à locomotiva. “Há um mês estava aqui de lado deixada uma uma biela que pesa 140 quilos”. “Temos alguma pressa em resolver este problema e tirar daqui a locomotiva”, acrescentou Vitor Simões, que disse ainda: “Ainda esta noite aqui estiveram aqui amigos do alheio. Ainda assim, connosco nesta luta, todas noites este espaço tem sido visitado pelos amigos do alheio”.
E para mostrar que eram verdadeiras as palavras de Vitor Simões, enquanto estavam nas imediações, foi encontrada, já no exterior, uma peça em ferro que havia sido tirada da locomotiva e que teve de ser carregada por nada mais nada menos do que seis homens.
“Temos de continuar a pressionar a Fundação Museu, que está em falta para connosco”, disse Vitor Simões. “Há uma semana reuniram connosco, prometeram que nos faziam chegar um projecto de protocolo e ainda não chegou nada. Esta semana vamos voltar à carga, porque sem este passo dificilmente podemos fazer alguma coisa”, prosseguiu.
A finalizar, Vitor Simõs pediu “ajuda para continuarmos a tocar este barco”. “Há muito para resolver”, acrescentou, e solicitou aos pampilhosenses que procurem reunir, dos seus patrimónios pessoais e familiares, fotografias, peças, recordações que possam ornamentar o futuro Museu Ferroviário da Pampilhosa. “Esta máquina estará lá, mas terá de ser ornamentada com muitos outros objectos”, concluiu Vitor Simões. Na ocasião e a este propósito, foi dada a informação de que o fotografo Varela Pécurto – ali presente – havia dirigido uma carta ao Museu Nacional ferroviário no sentido de autorizar que as suas fotografias a ele doadas e tiradas na Pampilhosa na década de 1950 pudessem ser cedidas para o futuro museu pampilhosense.
Depois dos aplausos à intervenção do orador, de forma espontânea, e enquanto se agrupavam para a fotografia junto da locomotiva, os participantes começaram a entoar a música “Pampilhosa Ala-Arriba”, com grande entusiasmo. Trata-se de uma música com letra de Guilherme Ferreira da Silva e música de Joaquim Pleno, de 1952, feita com o título “Pampilhosa Sem Botão” para o entremez representado nas Covas da Baganha, por ocasião da inauguração da sede da Filarmónica Pampilhosense.
Foto tirada, os participantes deslocaram-se para norte do armazém, onde se aproximaram de uma peça que – por vontade do movimento cívico – integrará, também, o espólio do Museu Ferroviário. Trata-se de uma “toma de água”, uma peça grande e pesa, em metal, (ver fotografias 22 e seguintes) que servia para reabastecer de água as locomotivas a vapor – como a BA61.
Foi neste momento que Fernando Queiroz (fotografias 30 e 31), antigo trabalhador da CP – que trabalhou com a BA61 de 1958 a 1964 – explicou in loco todos os propcessos diários de abastecimento – de carvão e água – e de manutenção – limpeza e processo de acender os fornos – que a locomotiva carecia. Foi um momento de deleite e partilha, que deixou muito entusiasmados todos os aficionados da ferrovia ali presentes.
Depois, houve nova deslocação, desta vez para a Casa Quinhentista, para um almoço convívio.
JM
Autor: Jornal da Mealhada
