Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

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Uma primavera inicialmente quente voltou atrás e deu lugar ao frio do inverno, fenómeno comum na nossa latitude. Queixa-se o […]

Uma primavera inicialmente quente voltou atrás e deu lugar ao frio do inverno, fenómeno comum na nossa latitude. Queixa-se o país que não chove e que as reservas de água estão nos limites da catástrofe. Pobre lavrador, se os há ainda na subsistência dos dias! Uns a trabalhar para nada, outros a semear burocracia para, talvez não sejam errados os termos, subtrair fundos da comunidade para tudo ficar na mesma. Num país que não caminha, pelo contrário, anda para trás, como se pode encarar a falta de chuva? É endémico, sempre assim foi e nunca ninguém se preocupou com a construção duma rede de barragens coerente com as estatísticasxa0 da falta das águas pluviais.

Nem de águas nem de outras coisas, num país secularmente anárquico quem se iria lembrar de semelhante atropelo?

Dizem que somos assim, mas ninguém pode ser assim por emergência genética ou irracionalidade. O normal é o homem aprender com a experiência,xa0 com os erros e os êxitos e limar através dos tempos a suaxa0 maturidade, a sua honestidade, a sua competência e o seu grau civilizacional. O que se passa connosco, cidadãos deste sítio marginal a que os romanos deram o nome de Lusitânia e o de lusos ao seu povo,xa0 que teve em Camões o maior vate e a maior miséria, é a falência total de oitocentos anos de história. Falência em todos os campos apesar de, mais uma vez nessa longínqua caminhada de iniquidade, ter tido na mão o oiro necessário para inverter o caos. Que fizemos ás carradas vindo duma Europa no seu ciclo áureo de filantropia e fraternidade?

Ninguém responde porque também ninguém pergunta .

Da abundância construiu-sexa0 a pompa, oxa0 exagero, o inútil, muito do que há-de ser o lixo dum amanhãxa0 que não tarda. Gastou-se porque era para gastar, dissimilou-se porque era para dissimular, roubou-se porque era para roubar. Ninguém pergunta e ninguém responde.xa0 O país não tem alma, não tem oito seculos dexa0 gestação, não tem família, não tem grei nem tem lei.

Quem se amanhou , amanhou , quem não se amanhou, amanhasse ?

Talvez seja esta a melhor imagem para retratar o acontecido

Mas há neste processo um elemento essencial que foixa0 permanentemente esquecido , e esse elemento foi a matéria humana, o povo desta nação. Os rios do ouro comunitário não vieram para beneficiar este povo. Nem os políticos que através de partidos transformados em redes de interesses vários tomaram conta do poder o fizeram. A cada tomada dos lugares, festejada com gaiteiros e com festas, tudo se esqueceu e tudo passou no dia seguinte para o património das despectivasxa0 clientelas.

Hoje, perante um povo submisso e eternamente resignado uma legião de novos próceres toma conta do poder e do rebanho tratando-o com a mesma displicênciaxa0 e a mesma sobranceria com que o faziam os governos do Estado Novo, com a agravante da liberalidade a que chegaram as contas públicas, donde todos parecem beneficiar menos o dito povo deste país.xa0

País de novas classes sociais, a autonomia de que beneficiam políticos e redesxa0 a quem é entregue a riqueza da nação , não chega ao povo, por isso há uma justiça a funcionar para uns , os escolhidos, outra para a maioria do povo anónimo. Ou seja, o cidadão de primeira e o cidadão de segunda que, embora não aceitemos, existe efetivamente.

Um povo submisso, obstruído, resignado , limitado na liberdade de ver a bola, a televisão ou de ir a algum santuário mariano, mas algemado no pensamento, na criatividade, na igualdade de oportunidades, na educação, na cultura, no espartilho económico. Sem justiçaxa0 não há democracia, sem cidadania não há liberdade, sem recursos económicos não há sobrevivência.

Quem não nasceu depois de abril tem consciência da rigidez imutável do regime anterior, um regime policial, perseguidor, que fez do cidadão um boneco de palha que se comprazia em queimar. Queimava-lhe os fusíveis da inteligência, era proibido manifestar o pensamento. Queimava-lhe a criatividade com doses de doutrina mastigada. Anulava á nascença o caminho da universidade, do saber e o espirito critico porque o não pretendia sustentar e rebater.

Ora este sistema aberrante que lhe sucedeu, tem sido, por vias ditas democráticas, tão aberrante como aquele.

Eleitos em nome da pátria com promessas que são mentiras, os políticos governam-se em vez de governar e este povo, massacrado por séculos de obscurantismo e hipocrisia, continua a acreditarxa0 na vontade dos prodígios , os heróis em quem votou, os abençoados pela sorte. A resignação, o baixar dos braços, o choro, o fado , as promessas e a fé rearmam-se no espirito nacional para aceitar a desdita , a fome, a morte. A nossa história está cheia destes exemplos épicos perpetrados pelo poder discricionário das classes superiores.

Com tradicional atraso no desenvolvimentoxa0 e sem a força que a pequenez territorial não dá, xa0mas muito mais sem força das ideias e das vontades, Portugal é uma teia complexa de compadrios e benesses governada por incompetentes e tiranos que nunca construíram para o povo um regime minimamente aceitável. Assim nasceu uma característica e insólita democracia á Lusitânia enraizada nos abusos da monarquia e neste primeiro século de republica , numa rede de míticas e líricas associações de interesses que apenas servem para manter o conservadorismo das ideias, o atraso cultural da grande massa da nação, a matéria prima e a riqueza na mão de meia dúzia de cidadãos e famílias, perante um Estado que distribui benesses e favoresxa0 a seu belo prazer por filhos e enteados á custa dos impostos doxa0 cidadão de mais baixos rendimentos.

Rolando nas sucessivas correias de transmissão partidárias que giram dumas para as outras consoante a assunção plena do poder, este Estado é o exemploxa0 do anarquismo da gestão, do libertário e discricionário poder duma dúzia de ministros e de toda uma malhaxa0 de interesses e poderes que desce de ministérios a organismos, empresas e poder autárquico , numa desconexão e liberdade sem nexo , sem controle e sem responsabilização.

Na sequência dexa0 todos os órfãos desmandos derivados, não há empregos, e chegam os governantes a mandar o jovem cidadão trabalhar para outro lado, para o estrangeiro.

Será que não existe um mínimo de vergonha na cara de quem governa? O português sabe, sempre soube quando não existe outra alternativa, mas dêem-lhe no mínimo a dignidade de ser ele a escolher, já que quem governa a não tem!

É um direito . xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0xa0

FERRAZ DA SILVA

Luso,8 de abril de 2012

CRÓNICAS LOCAIS #118

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Autor: Jornal da Mealhada

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