Reflectir – Sendo
O meu quê de proustiana leva-me, através da poesia e de outros momentos de escrita, como que a uma constante […]
O meu quê de proustiana leva-me, através da poesia e de outros momentos de escrita, como que a uma constante procura do meu tempo perdido nos anos, impossível de reencontrar, um tempo em que descurei o valor da minha palavra como meio de contacto comigo, para bem de outros. Outros eram, então, também, os objectivos do uso da Palavra.
Vou permitir-me dialogar comigoassimao meu estilo, com a mesma preocupação de PROUST, na procura do seu tempo perdido, que nunca pôde encontrar porque ninguém o pode fazer.
Um ruído, quase poético, faz estremecer a espinha dorsal das folhas, permitindo o deslizar das gotas de orvalho, quando o sol da manhã se levanta, lentamente, irrompendo de um horizonte, algures entre o céu e o mar. Está dentro de mim, esse ruído permanentemente a procurar as respostas para as verdades que não encontro, como nenhum de nós pode encontrar. E no entretanto, através das árvores que estremecem de vento, vejo o colorido solar a banhar o planeta-vida. O vento ligeiro decompõe as nuvens em tufos de brancura, que se fixam, insidiosamente, na poeira da nossa mente; e porque nada é estável, nada é imóvel, tudo se move, em rapidez e triunfo, quando os raios quentes, alaranjados, abraçam as árvores, o mar e eu, que páro, a pensar. O pensamento adquire, pois, a mística beleza de cúpula de catedral e, em pose de meditação, pergunto-me se me devo perder por entre a música silenciosa da floresta, em peregrinação pelas margens dos regatos, repousando ao lado das ervas, unidas como amantes a transpirar o prazer de existir.
É esta a biblioteca mais credível da minha vida, quando me quero encontrar; fluxo fertilizador, ela impõe-se a tudo o que encontra pela frente pois o AGORA-É-SEMPRE-UM-HÁ-DE- SER
O filósofo Schopenhauer (Danzig, 22 de Fevereiro de 1788-Frankfurt, 21 de Setembro de 1860) dizia que a vida é um pêndulo que oscila perpetuamente entre a ansiedade e o tédio e que é imperioso superar a falta do que se situa entre estes dois polos e preencher o Desejo; mas a verdade é que um desejo deixa de o ser, quando se realiza
Consequentemente, o homem nunca se realiza, porque há sempre desejos por cumprir! Talvez por isso Camus tenha empreendido a viagem da Procura ao longo da sua grande meditação, que é essa obra, cansativa e apaixonante, EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. Pretende o autor mostrar-nos que essa obra não tem fim, como não o tem esta aprendizagem estafante de viver. E qual de nós não pensa para poder ver se aprende, mesmo-e sobretudo!-sem conversas filosóficas, a viver melhor? Aliás, temos um ditado que diz: Aprender até morrer.Cada um de nós tem o seu processo catártico de encontrar respostas; e fá-lo, meditando, quase sem querer. Afinal, somos os únicos seres dotados de pensamento! O que, diga-se de verdade, é um tremendo pesoEstamos condenados a uma eterna Procura dos segredos ocultos ou da verdade nunca encontrada, para nos projectarmos para além das dúvidas e das rotas de colisão com as ilusões.
Estará essa verdade nas sombras que perturbam? No espelho de alguma lenda que resistiu à voragem dos tempos, carcomido por manchas ácidas, contudo?
Uma melodia de odores espalha-se nesta cruzada de humores matinais, confundindo-se com acordes dos Quartetos de BEETHOVEN. A música permite-me estar-comigo-fora-de-mimÉ um modo de me procurar, através de florestas, rios, mares e desertos, sem ter que responder às esfinges, para as quais não tenho sapiência
Uma chávena de café fixa-meAlgures, no meio da minha hora meditativa, chilreiam os pardais, desabrocham as flores, rebentam novos ramos de árvoresE torna-se difícil descrever as angústias do mundo onde EU-EXISTO-E-SOUe tenho medo que o bater das asas de uma borboleta, em horizontes longínquos, faça estremecer o planeta com a força de um pensamento incorrecto
A verdade é que o viver é assimuma coisa sobrepõe-se imediatamente a outra num contínuo e sistemático acto de mudança, sem dar tempo a que nos concentremos numa única dúvida, numa única verdade, que se não sabe qual é. São tantos os túneis labirínticos para os quais procuramos saídasProcuramos, por isso, esgueirarmo-nos para os campos de papoilas no meio dos trigais, onde pétalas flutuam e aves cantam suaves madrigais.
A toda a hora mergulho no véu da infância, que estremece, quando lhe toco. É antes da minha infância que começam as dúvidas, as procuras
Os abismos verdes das algas do mar são tão profundos! mas deixo-os para os peixes errantes que não pensam e enterro os pés no areal luminoso da vida onde as conchas repousa , inconscientes dos ventos que sopram as poeiras da mente.
Comigo, o poema de Mário Dionísio, ARTE POÉTICA:
A poesia está na vidaNo grito do rapaz apregoando jornaisno riso da loira da tabacariana docano beijo que se trocouA poesia está em tudo quanto vivena luta dos homensnos olhos abertos para o amanhã.
Até sempre, amigos leitores.
Mealhada, 1 de Julho de 2012
MARIA ELISA RIBEIRO
De Tudo um Pouco
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Maria Elisa Ribeiro
Autor: Jornal da Mealhada
