Segunda-feira, 02 de Janeiro de 2012

Selecção Portuguesa de Futebol  passo a abster-me de apoiar.

Selecção Portuguesa de Futebol passo a abster-me de apoiar.

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Selecção Portuguesa de Futebol passo a abster-me de apoiar.

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Ponto prévio: enquanto actividade desportiva porque cultura, ou actividade cultural, é algo que gera retorno positivo o Futebol traz consigo tudo aquilo que detesto: irracionalismo, paixões sem fundamento, fanatismo, violência, vandalismo e diferenciação onde se incluem as práticas racistas. Por estes motivos, e mais alguns, tenho resistido a tecer opiniões que impliquem directamente o Futebol à quatro anos que não escrevo sobre a temática e tinha prometido, a mim mesmo, nada mais escrever. Acontece que a recente demonstração de subdesenvolvimento cultural, por parte do Povo Português, no Playoff de apuramento contra a Bósnia fez-me repensar a minha posição. No essencial destas coisas, não há verdades absolutas muito menos certezas.

Os Estados, para que existam enquanto organizações, necessitam, em primeiro lugar, de Poder Político forte e actuante, em segundo, de Território e em terceiro de População que o habite. Acontece que estas três características essenciais, naquilo que se pode considerar a composição dos Estados Modernos, implicam uma quarta condição: o Sentimento de Pertença. A Nação, ou melhor: a Pátria o melhor produto do Romantismo enquanto movimento filosófico , não se explica por maiorias ou minorias numéricas, em qualquer que seja o Sistema de Governo. Há qualquer coisa que, como adverte Adelino Maltez, deve ser entendida pelo coração. A pátria resulta da Construção Social e de um conjunto de Símbolos a tal Imagem Colectiva que cada povo, em determinado momento histórico, assume como seus.

Goste-se ou não eu, particularmente, não gosto o mínimo , os portugueses foram, gradual e progressivamente, substituindo um conjunto de símbolos de primeira geração, tais como a Família ou a Religião que por si são já pouco recomendáveis , por um outro símbolo, de segunda geração por sinal menos recomendável ainda a Selecção Portuguesa de Futebol. Da Selecção, enquanto conjunto de individualidades, nada de valor há a retirar excepção feita à actualizadíssima colecção de penteados, tatuagens e carros de alta cilindrada que os jogadores vão exibindo , e pela Selecção os portugueses comportam-se da forma mais primitiva, mais irracional e mais desrespeitosa de que tenho e há memória.

Para que se perceba grande parte da comunicação social, ou é mal informada ou tem pouco interesse em informar, das duas uma , a Bósnia e Herzegovina, enquanto República Federal, resulta da extinção e desagregação da Antiga Jugoslávia. Nó início da década de 90, após o colapso do Comunismo no Mundo Ocidental, a Bósnia e Herzegovina composta por bósnios, sérvios, croatas e «jugoslavos» entrou em guerra civil, o que veio a acentuar o seu carácter multicultural, multinacional e profundamente diferenciado no que à Religião diz respeito os croatas são católicos romanos, os bósnios muçulmanos e os sérvios cristãos ortodoxos. Do ponto de vista político, a Bósnia é uma Democracia Emergente, com pouca tradição democrática e com mecanismos de renovação das elites incipientes. Enquanto Sistema de Governo, trata-se de uma Presidencialismo Tripartido, dotado de um Parlamento Bicameral a Câmara dos Representantes e a Câmara dos Povos , que visa acomodar, através de um sistema de representação proporcional, grande parte das tenções e clivagens ideológicas. Em suma, mesmo tratando-se de um Estado Soberano se bem que esta matéria é discutível, a Bósnia tem, à sua frente, um largo e longo caminho a percorrer até se tornar uma Democracia consolidada, sustentável e com tradição.

Portugal, por sua vez e sem margem para qualquer dúvida, trata-se de uma Democracia consolidada com 37 anos de tradição democrática. Um Estado, uma só Nação o que não acontece no caso espanhol , onde os Órgãos de Soberania funcionam, entre si, de forma perfeitamente articulada e onde as competências dos mesmos estão perfeitamente claras do ponto de vista constitucional. Mais: não se conhecem grandes clivagens étnicas ou religiosas a ideia de um eleitorado de centro profundamente católico e conservador está esbatida e mesmo as tenções que possam existir dentro da sociedade, criadas por grupos de pressão, multinacionais ou lobbies, tendem cada vez mais, nas Democracias Modernas, a ser debatidas em sede de concertação social. Portugal integra a União Europeia e assume-se como um País do chamado «Primeiro Mundo». Posto isto, qualquer pessoa intelectualmente saudável ou honesta percebe que uma e outra realidade Bósnia Herzegovina e Portugal pouco ou nada têm em comum, a não ser a Selecção Nacional de Futebol de cada país.

O sorteio, de apuramento para o Euro 2012, ditou que Portugal jogasse a primeira mão do Playoff na Bósnia, a 11 de Novembro, em Zenica. Por essa altura, os jogadores foram incomodados durante o descanso que antecedeu o jogo. Antes da partida começar não se distinguiam os insultos dos bósnios do Hino de Portugal. Durante o jogo, os bósnios procuraram, a todo o custo, perturbar o espectáculo. Entoaram cânticos ofensivos e colocaram os portugueses a jogar num campo impróprio para consumo. O jogo acabou empatado a zero. A Selecção Bósnia foi, sem aparente surpresa, a imagem do país.

Na segunda mão do playoff, a 15 de Novembro, Portugal recebeu e venceu (6-2) a bósnia, no Estádio da Luz. O que ali se passou falo com conhecimento de causa porque estive lá , antes e durante o jogo, foi a maior e mais triste demonstração de primitivismo de que tenho e há memória. Portugal, enquanto país civilizado e primeiro-mundista, tinha a oportunidade de combater a violência verbal, o desrespeito, a intolerância e a desconsideração, com que foi recebido na bósnia, com diplomacia, com polidez, com civilidade e com o respeito que nos deveria merecer a Bósnia. Se assim fosse infelizmente não foi , Portugal teria mostrado, mesmo tendo sido insultado em Zenica, a nobreza com que se comportam os grandes povos e a educação das grandes culturas. Portugal podia, e devia, ter demonstrado, à Europa e ao Mundo, que à actual crise económica, que o país enfrenta, não corresponde uma crise cultural, educacional ou de valores éticos. Podia, e devia, mas não o fez. Os jogadores bósnios foram constantemente insultados, agredidos verbalmente, antes e durante o Hino do seu país. Portugal respondeu ao desrespeito com mais desrespeito, à intolerância com mais intolerância e à desconsideração com mais desconsideração. Da Bósnia, pelo passado político recente, poder-se-á compreender, de Portugal jamais. Portámo-nos vergonhosamente felizmente, para mim, inclui-me no pequeno grupo de portugueses que aplaudiram, contra a maioria de animais pouco esclarecidos, a selecção e os jogadores bósnios.

Não devíamos, nem merecíamos, estar presentes no Euro-2012. Pela triste imagem, e exemplo, que deixámos ao mundo. Passo a abster-me de apoiar a selecção.

André Manuel Vaz

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Autor: Jornal da Mealhada

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