Quarta-feira, 09 de Dezembro de 2015

VERMELHOS  PROCESSADOS

VERMELHOS PROCESSADOS

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VERMELHOS PROCESSADOS

A manhã já espreitava a serra do Bussaco. Noticiário na televisão, eu, de costas voltadas a torrar uma côdea guardada […]

A manhã já espreitava a serra do Bussaco. Noticiário na televisão, eu, de costas voltadas a torrar uma côdea guardada religiosamente do dia anterior e o sentido auditivo a trair-me.

Vermelhos processados

Rodei no sentido da televisão, tal qual um robô programado. Confesso que não ouvi mais nada.

Porra!… O quê? Era o que mais faltava! Berrei, rubro de raiva, desafiando o locutor.

Querem lá ver que em todos estes anos, em que primeiro fui obrigado a uma vida arrastada com os salazarentos, depois, com a reviravolta, volvidos quarenta anos, ora com uns, ora com outros no poleiro, sempre a mesma história, do vira o disco e toca o mesmo fado da desgraçadinha e agora

Sim, agora, que deram uma mocada na grafonola a ficar desconjuntada de vez, processam os vermelhos? Ai seiscentos mil raios, partam isto!…

Em conclusão: a gente muitas das vezes mete o pé na argola: olha mas não vê, escuta mas não ouve.

Assim me aconteceu!… Penitencio-me.

Afinal, o que estava em notícia, era o alerta da Organização Mundial de Saúde para o quanto era de maligno, alimentarmo-nos em demasia, com carnes vermelhas e processadas.

Bom! Carnes vermelhas sempre se soube a que animais pertencem e não me lembro, tirando as vacas apancadadas, que cá no nosso torrão tivesse batido a bota algum guloso carnívoro.

Carnes processadas, confesso-me humildemente que fiquei a saber agora, que são as que o homem na maioria das vezes aldraba com mixórdias para enganar os papalvos, enquanto as Asaes, andam à cata de farrapos contrafeitos nas feiras. Sempre conheci essas ditas carnes, como trabalhadas, transformadas e mastigadas.

A verdade, é que me cansou este alvoroço espalhafatoso dias seguidos. Alarmam indiscriminadamente, porque não querem saber como é que a maioria das pessoas sobrevive.

Têm é receio de que os Portugas acabem por morrer empanturrados e depois, lá vêm subsídios para ajudar os custos da viagem sem volta e vai daí, escangalhar-se o orçamento do governo por desvio de verbas, que já estão comprometidas com os bancos, roídos pelas ratazanas sem escrúpulos.

No meu entender, o pessoal da alta, de sangue azul, não se alambaza, não come à bruta, à fartazana. Claro que não. Parece mal. Não é chique. Esses, por uma questão de estatuto, frequentam restaurantes de não sei quantas estrelas, vestidos a rigor, pagam forte e feio e regressam a casa cheios de fome, mas felizes, por não serem pé rapado e pertencerem a uma elite altamente seleccionada.

Não minto, nem exagero.

Certamente já viram aquelas reportagens, em que um reputadíssimo chefe, como por exemplo o Mário Batali, tendo na sua frente um grande prato branquinho, coloca estrategicamente, sem tremer, nem pestanejar, apenas com a ajuda duma pinça e duma lupa, uma pétala de Orquídea, no cimo de um inexplicável e quase inexistente amontoado de coisinhas que se diz serem comestíveis.

E é claro que não é nada chiquérrimo, meter à boca aquela mixórdia que tem um nome esquisito, com uma única e simples garfada.

Bom! Arrivederci.

xa0

Se esta gente possuísse um pouquinho de sensibilidade, antes de lançarem cegamente estes estudos, chegavam à conclusão que, a grande desgraça que mata, é a fome.

No nosso torrão onde, segundo as estatísticas, dois milhões chafurdam na pobreza com os orçamentos miseráveis a não chegarem para dar o devido sustento às famílias, onde não entra pão quanto mais carne, com crianças a irem para os estabelecimentos de ensino a desmaiar com fome e, e, o que fica por apontar. É um dó de alma, Deus do Céu.

Senhores, nós para morrermos, terá que ser infalivelmente de alguma coisa, não é verdade? Então, denunciem mas é, quem rouba o sustento que dava para todos e então que se morra de fartura e não de fome.

A minha costela de transmontano diz-me que é preferível morrer um boi com fartura, do que um rato com fome.

Para mim, a maior calamidade que destrói a humanidade e nada se faz, é a fome. A fome!

A fome!… Senhores.

xa0

Hermínio Pires

Autor: Jornal da Mealhada

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