O que são os hantavírus? Consulta do viajante é de “importância crítica” alertam médicos
O Jornal Frontal explica neste artigo o que são os hantavírus, localização, doenças que provoca, as causas da contaminação e como prevenir a infeção.
A Sociedade Portuguesa de Medicina do Viajante (SPMV) alertou hoje para a “importância crítica” de quem se deslocar para as regiões endémicas de transmissão do hantavírus, na América do Sul, ter uma consulta prévia de aconselhamento.
“Os viajantes com destino a zonas rurais da América do Sul, em particular Argentina, Chile e Uruguai, devem ser aconselhados sobre medidas de prevenção de exposição ao hantavírus”, adiantou a SPMV, num ponto de situação relativo ao surto de infeção pelo vírus Andes associado ao navio de cruzeiro Hondius.
Salientando que o risco para a população portuguesa é considerado baixo e que não existe transmissão comunitária, a sociedade médica realçou que o surto detetado no início do mês “reforça a importância crítica da consulta do viajante antes de deslocações para áreas endémicas”.
Em comunicado, a SPMV referiu que quem viajar para as regiões rurais em causa deve evitar o contacto com roedores ou com os seus excrementos e permanecer ou pernoitar em espaços mal ventilados ou com sinais de infestação por roedores, privilegiando alojamentos com condições adequadas de higiene e ventilação.
Adiantou ainda que os profissionais de saúde devem reforçar a vigilância clínica em viajantes regressados dessas regiões que apresentem síndroma febril e mialgias, entre outros sintomas, mas também de pessoas com histórico de contacto próximo com caso confirmado até 42 dias após a última exposição.
Desde que o surto provocado pela variante dos Andes foi declarado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 02 de maio, foram confirmados em laboratório oito casos de infeção e registaram-se três mortos.
A OMS considera que o risco é moderado para os ex-passageiros e tripulação do navio de cruzeiro, onde se detetou primeiro o vírus, e baixo para o restante da população no mundo.
A origem deste surto de hantavírus ainda é desconhecida, mas, segundo a OMS, a primeira contaminação deverá ter ocorrido antes do início da expedição a 01 de abril, pois o primeiro passageiro falecido, um holandês de 70 anos, apresentou sintomas já a 06 de abril.
O período de incubação do vírus situa-se entre uma e seis semanas e não existe vacina nem tratamento específico contra o hantavírus, que pode provocar uma síndrome respiratória aguda.
A taxa de letalidade – percentagem de pessoas doentes que morrem após contrair a infeção – deste surto é, nesta fase, de 27%, segundo a OMS.
Os hantavírus são um grupo de vírus transmitidos por roedores que podem causar doenças graves nos seres humanos. Cada hantavírus está tipicamente associado a uma espécie específica de roedor reservatório, na qual o vírus causa infeção de longa duração sem sintomas aparentes.
Embora tenham sido identificadas muitas espécies de hantavírus em todo o mundo, apenas se sabe que um número limitado delas causa doença em humanos. Estima-se que ocorram de 10.000 a mais de 100.000 infeções por ano em todo o mundo, sendo a maior incidência na Ásia e na Europa.
Os hantavírus estão associados a duas doenças principais em humanos: a síndrome pulmonar por hantavírus (SPH), predominantemente reportada nas Américas, e a febre hemorrágica com síndrome renal (FHSR), reportada principalmente na Europa e na Ásia.
As pessoas geralmente infetam-se através do contacto com roedores infetados ou com a sua urina, fezes ou saliva. Até à data, a transmissão de pessoa para pessoa foi documentada apenas para o vírus Andes, que é endémico em algumas partes das Américas.
Doenças que os virus provocam
Os hantavírus são um grupo de vírus transmitidos por roedores que podem causar doenças graves nos seres humanos. As pessoas são geralmente infetadas pelo contacto com roedores infetados ou com a sua urina, fezes ou saliva.
A infeção por hantavírus pode levar a uma variedade de doenças, que podem ser graves e até fatais.
Os hantavírus são vírus zoonóticos que infetam naturalmente os roedores e são ocasionalmente transmitidos aos humanos. A infeção em humanos pode causar doenças graves e, frequentemente, a morte, embora as doenças variem consoante o tipo de vírus e a localização geográfica. Nas Américas, sabe-se que a infeção por hantavírus causa a síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH), uma condição de rápida progressão que afeta os pulmões e o coração, enquanto na Europa e na Ásia, os hantavírus causam febre hemorrágica com síndrome renal (FHSR), que afeta principalmente os rins e os vasos sanguíneos, explica a Organização Mundial da Saúde.
Embora não exista um tratamento específico para curar as doenças causadas por hantavírus, o apoio médico nas fases iniciais é crucial para melhorar a sobrevivência e centra-se na monitorização clínica rigorosa e no tratamento das complicações respiratórias, cardíacas e renais. A prevenção depende fortemente da redução do contacto entre pessoas e roedores infetados.
Presença no mundo
As infeções por hantavírus são relativamente raras a nível global, salienta a OMS, mas estão associadas a uma taxa de letalidade que varia entre menos de 1% a 15% na Ásia e na Europa, e até 50% nas Américas. Estima-se que, a nível mundial, ocorram anualmente entre 10.000 a mais de 100.000 infeções, sendo a Ásia e a Europa as regiões com maior incidência.
Na Ásia Oriental, particularmente na China e na República da Coreia, a SHFRS continua a ser responsável por milhares de casos anualmente, embora a incidência tenha diminuído nas últimas décadas.
Na Europa, são reportados anualmente milhares de casos, principalmente nas regiões norte e centro, onde circula o vírus Puumala. Nas Américas, a Síndrome Pulmonar por Hantavírus (SPH) é muito menos comum, com apenas algumas centenas de casos por ano em todo o continente.
Os Estados Unidos reportaram menos de 1.000 casos, enquanto países sul-americanos como a Argentina, o Brasil, o Chile e o Paraguai reportam um pequeno número de casos anualmente. Apesar da menor incidência, a SPH apresenta uma elevada taxa de letalidade, variando geralmente entre os 20% e os 40%, o que a torna uma preocupação significativa de saúde pública.
Transmissão a humanos
Os hantavírus são transmitidos aos humanos através do contacto com urina, fezes ou saliva contaminadas de roedores infetados. A infeção também pode ocorrer através de mordeduras de roedores, embora seja menos comum. As atividades que envolvem o contacto com roedores, como a limpeza de espaços fechados ou mal ventilados, a agricultura, o trabalho florestal e o sono em casas infestadas por roedores, aumentam o risco de exposição.
Segundo a OMS, a transmissão de pessoa para pessoa foi documentada apenas para o vírus Andes nas Américas e continua a ser incomum. Quando ocorre, a transmissão entre pessoas tem sido associada a um contacto próximo e prolongado, especialmente entre membros da mesma família ou parceiros íntimos, e parece ser mais provável durante a fase inicial da doença, quando o vírus é mais contagioso. Isto verificou-se nos navios de cruzeiro.
Qual o virus detetado no cruzeiro
O hantavírus envolvido nos casos do cruzeiro é o vírus Andes, a única espécie conhecida capaz de transmissão limitada de pessoa para pessoa em condições de contacto direto e prolongado, esclareceu o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.
O responsável, que ficou conhecido mundialmente pelas atualizações diárias da pandemia de covid-19, descreveu esta situação, referindo que “embora este seja um incidente grave, a OMS considera o risco para a saúde pública baixo”. Alertou ainda que, dado o período de incubação do vírus, “mais casos poderão ser reportados”.
O diretor-geral da OMS assegura que mantém “uma estreita coordenação com vários países ao abrigo do Regulamento Sanitário Internacional (RSI), um conjunto de regras que define os direitos e obrigações dos países e da OMS na resposta a situações de saúde pública”. Sublinha ainda “a importância da cooperação e solidariedade globais no enfrentamento das ameaças à saúde que não conhecem fronteiras.”
“As nossas prioridades são garantir que os doentes afetados recebem cuidados, que os passageiros que permanecem no navio estão seguros e são tratados com dignidade e prevenir qualquer propagação adicional do vírus”, disse o médico.
Desde que foi notificada da situação, a 2 de maio de 2026, a OMS agiu com várias medidas, entre estas o envio de um especialista a bordo do navio para auxiliar na realização de uma avaliação médica completa de todos os passageiros e tripulantes, bem como para recolher informações essenciais para avaliar o risco de infeção.
A OMS alega que coordenou o envio de 2.500 kits de diagnóstico da Argentina para laboratórios de cinco países, de forma a reforçar a capacidade de testagem. A Organização está também a desenvolver orientações operacionais detalhadas para o desembarque seguro e respeitoso e a continuação da viagem de passageiros e tripulantes após a chegada.
Prevenção e controlo
A prevenção da infeção por hantavírus depende principalmente da redução do contacto entre pessoas e roedores. As medidas eficazes recomendadas pela OMS incluem:
- manter as casas e os locais de trabalho limpos
- vedar aberturas que permitam a entrada de roedores nos edifícios
- armazenar os alimentos de forma segura
- utilizar práticas de limpeza seguras em áreas contaminadas por roedores
- evitar varrer ou aspirar fezes de roedores a seco
- humedecer as áreas contaminadas antes da limpeza
- reforçar as práticas de higiene das mãos.
Durante os surtos ou quando há suspeita de casos, a identificação e o isolamento precoces dos casos, a monitorização dos contactos próximos e a aplicação de medidas padrão de prevenção de infeções são importantes para limitar a propagação, recomenda a organização.
Autor: Maria da Graça Polaco
